Estudo da FGV contraria tese de dependência do Bolsa Família e aponta saída de 60% dos beneficiários

Estudo da FGV contraria tese de dependência do Bolsa Família e aponta saída de 60% dos beneficiários
Foto: Lyon Santos/Divulgação/MDS

Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta que 60,68% dos beneficiários do Bolsa Família em 2014 deixaram o programa até 2025. Os resultados contrariam a ideia de que a transferência de renda provoca, necessariamente, dependência permanente e desestimula a busca por emprego.

A pesquisa, intitulada Filhos do Bolsa Família: Uma análise da última década do programa, analisou a trajetória dos beneficiários e identificou avanços na inserção profissional e na mobilidade social.

Entre os jovens que tinham de 11 a 14 anos em 2014, 68,8% deixaram o programa até 2025. Já entre aqueles que tinham de 15 a 17 anos, o percentual chegou a 71,25%.

Além disso, a saída do benefício foi mais frequente entre pessoas com carteira assinada, alcançando 79,4%. O estudo também identificou uma relação positiva entre a escolaridade dos pais e as chances de os filhos superarem a situação de vulnerabilidade.

Os resultados indicam que o Bolsa Família pode contribuir para interromper a transmissão da pobreza entre gerações. Entretanto, deixar de receber o benefício não significa, isoladamente, que todas essas famílias tenham alcançado estabilidade financeira.

Foto: Valdemar Pinho Neto (FGV EPGE), Ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, e o diretor do FGV Social, Marcelo Neri

Ministro destaca autonomia dos beneficiários

Durante a apresentação da pesquisa, em 5 de dezembro de 2025, no Rio de Janeiro, o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, afirmou que os resultados demonstram a importância do programa para a mobilidade social.

“O que verificamos aqui é a quebra do ciclo intergeracional da pobreza. O Bolsa Família não acomoda; ele dá a oportunidade para que os filhos superem a condição de seus pais e conquistem autonomia”, declarou.

O levantamento teve apresentação do professor Valdemar Pinho Neto, da FGV EPGE, e contou com a participação do diretor do FGV Social, Marcelo Neri.

Reprodução/Jornal OGlobo

Flávio Bolsonaro apagou publicações que chamavam benefício de “Bolsa Farelo”

O debate sobre os efeitos do programa voltou ao centro da campanha presidencial de 2026. O senador Flávio Bolsonaro (PL) apagou publicações antigas nas quais criticava o Bolsa Família e utilizava a expressão “Bolsa Farelo“.

Segundo reportagens do Estadão, da Folha de S.Paulo e de O Globo, as mensagens questionavam o programa e associavam o recebimento do benefício à falta de incentivo ao trabalho.

Em uma publicação de 2012, Flávio escreveu que “dinheiro cai do céu e ninguém precisa trabalhar dobrado para manter quem vive de bolsa família”. Em outra mensagem, de 2014, afirmou que “os milhões que recebem bolsa-família ou auxílio-desemprego não procuram emprego”.

De acordo com o jornal O Globo, o vereador paulista Nabil Bonduki (PT-SP) deu destaque ao “sumiço” das publicações e reproduziu parte deles em seu próprio perfil, num post que já obteve mais de 600 mil visualizações até a manhã desta terça-feira.

As declarações antigas contrastam com o discurso atual da campanha, que defende a manutenção do programa, mas propõe mudanças nas regras de transição para o mercado de trabalho.

Foto: Vittor Sales

Campanha propõe transição de dois anos

Na segunda-feira (19), a coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, apresentou à CBN uma proposta para permitir que beneficiários tenham um período de dois anos de transição para o emprego formal ou o empreendedorismo.

“As pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família”, afirmou Daniella.

Após a repercussão, Flávio Bolsonaro negou que pretenda acabar com o programa ou reduzir os benefícios. A equipe econômica também afirmou que a proposta permitiria o retorno à assistência caso a família não conseguisse manter sua independência financeira.

Pesquisa aponta relação entre emprego e saída do programa

Os dados da FGV mostram que o trabalho formal e a educação estão associados a maiores chances de deixar o Bolsa Família. 

A pesquisa também destaca que famílias em regiões com mais oportunidades econômicas apresentam melhores resultados. Por outro lado, nas áreas de maior vulnerabilidade, a transferência de renda continua importante para garantir condições básicas de sobrevivência.

Assim, os resultados oferecem evidências contrárias à generalização de que beneficiários não procuram emprego. Ao mesmo tempo, reforçam a importância de combinar assistência social, educação e oportunidades de trabalho para ampliar a autonomia das famílias.