Após dois anos da tragédia na Vila Sahy, 20 cidades da RMVale seguem em áreas de risco

Tragédia da Vila Sahy em São Sebastião completou dois anos nesta quarta-feira (19). Fotos Pública: Crédito: Thales Stadler/Governo do Estado de SP

Um levantamento feito pelo Serviço Geológico do Brasil – SGB, órgão ligado ao Ministério de Minas e Energia, indica que 20 municípios da Região Metropolitana do Vale do Paraíba – RMVale estão em áreas suscetíveis à ocorrência de deslizamentos, enxurradas e inundações. O documento indica ainda que mesmo após dois anos da tragédia da Vila Sahy, em São Sebastião, cerca de 26.016 pessoas ainda vivem em áreas de risco no Vale do Paraíba e Litoral Norte. 

Destaque para Campos do Jordão, o município que tem um total 46.974 moradores, segundo o último Censo do IBGE, tem pelo menos 10.298 pessoas vivendo em áreas de altíssimo risco para deslizamentos de terra, isso representa 21,92% da população. A cidade está entre as monitoradas diariamente pelo Cemaden para área com risco de deslizamento, enxurradas e inundações.

Final de semana é marcado por chuva de granizo, enchentes e deslizamentos de terra na RMVale
No fim do ano passado foram registrados pontos de deslizamentos na região de Campos do Jordão. Foto: Divulgação Defesa Civil

 

Em nota a prefeitura de Campos do Jordão informou que a Defesa Civil municipal está em monitoramento constante nas áreas consideradas de risco na cidade e que a Prefeitura tem estado próximo de todas as regiões e famílias com as devidas orientações. Ainda na sexta-feira (14), a prefeitura emitiu um alerta para essas áreas, após a cidade registrar forte chuva que causou quedas de árvores, deslizamentos de terra e pontos de alagamento. 

Ponto de deslizamento de terra em Campos do Jordão ocorrido em dezembro de 2024. Foto Defesa Civil do Estado

Ainda na região, outro destaque está em São Luiz do Paraitinga. A cidade que tem pouco mais de 10 mil moradores, pelo menos 51%, cerca de 5.354 pessoas, estão vivendo em áreas de risco. Ao todo, cinco municípios na RMVale possuem famílias que vivem áreas de altíssimo risco para acidentes geo‐hidrológico o que totaliza cerca de 26.016 pessoas. 

Na tabela abaixo você encontra a lista completa de municípios da RMVale que possui áreas propícias a deslizamentos de terra e outros riscos.

Município População População em risco Riscos
Aparecida 32.569 Deslizamento, Enxurrada e Inundação
Areias 3.577 Deslizamento, Enxurrada e Inundação
Bananal 9.969 Enxurrada e Inundação
Cachoeira Paulista 31.564 Deslizamento, Enxurrada e Inundação
Campos do Jordão 46.974 10.298 Deslizamento, Enxurrada e Inundação
Caraguatatuba 134.875 3.006 Deslizamento, Enxurrada e Inundação
Cruzeiro 74.961 Deslizamento, Enxurrada e Inundação
Cunha 22.110 2.680 Deslizamento e Enxurrada
Guaratinguetá 118.044 Deslizamento, Enxurrada e Inundação
Ilhabela 34.934 Deslizamento e Enxurrada
Jacareí 240.275 Deslizamento, Enxurrada e Inundação
Lorena 84.855 Enxurrada e Inundação
Paraibuna 17.667 Deslizamento, Enxurrada e Inundação
Queluz 9.159 Deslizamento, Enxurrada e Inundação
São Bento do Sapucaí 11.684 Enxurrada e Inundação
São José dos Campos 697.428 Deslizamento, Enxurrada e Inundação
São Luiz do Paraitinga 10.337 5.354 Deslizamento, Enxurrada e Inundação
São Sebastião 81.540 Deslizamento, Enxurrada e Inundação
Tremembé 51.173 Enxurrada e Inundação
Ubatuba 92.980 4.678 Deslizamento, Enxurrada e Inundação

Dois anos da tragédia em São Sebastião

Dentre as cidades que aparecem no levantamento está São Sebastião, apesar do município do ter sido palco de uma das maiores tragédias já vistas no Litoral Norte, após o deslizamento ocorrido em fevereiro de 2023 na Vila Sahy que vitimou fatalmente 64 pessoas e deixou milhares de desabrigados, a lista não indica quantas pessoas vivem atualmente em áreas propícias a novos eventos como deslizamentos, inundações e enxurradas.

Tragédia da Vila Sahy em São Sebastião completou dois anos nesta quarta-feira (19). Fotos Pública: Crédito: Thales Stadler/Governo do Estado de SP

São Sebastião passou a ser monitorada pelo Cemaden, dois anos antes da tragédia da Vila Sahy, em 2021. Antes disso, levantamentos feitos pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT, ainda em 2018, já indicavam às áreas de risco do município, e a quantidade de pessoas que viviam nessas localidades.

Na época, o estudo apontou a Vila do Sahy possuía 185 moradias e era uma área de alta probabilidade para ocorrência de inundação em eventos cuja água atingia níveis altíssimos de velocidade. Nesta quarta-feira (19) a tragédia de São Sebastião completou dois anos.

Números podem estar subestimados

De acordo com Rafael Luiz, especialista em Desastres do Cemaden, além do SGB, o mapeamento das áreas de risco também pode ser realizado por iniciativa dos próprios municípios e estados, que contratam órgãos como o IPT, por exemplo, para realizar essa atividade.

“No entanto, nem todas as áreas de risco existentes nos municípios estão mapeadas, e as que estão necessitam de atualizações periódicas. Isso ocorre porque, via de regra, o déficit habitacional das cidades brasileiras é tão grande que essas áreas surgem e se expandem a uma velocidade em que o poder público não consegue acompanhar ou mapear. O próprio mapeamento é um trabalho que leva tempo e é custoso. Com certeza esses números podem estar subestimados”, explicou o especialista.

Ainda de acordo com o Cemaden o mapeamento e atualização das áreas de risco é feito por órgãos parceiros do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil que, a nível federal compete ao Serviço Geológico do Brasil. “Ao Cemaden cabe o monitoramento das condições meteorológicas que possam representar algum risco para essas áreas apontadas pelo SGB. Embora nosso alerta seja enviado para o município como um todo, nosso foco, são as áreas de risco. O mapeamento delas inclusive é um critério para que o município possa ser monitorado”, destacou.

Tragédia da Vila Sahy em São Sebastião completou dois anos nesta quarta-feira (19). Fotos Pública: Crédito: Thales Stadler/Governo do Estado de SP

A CBN Vale, o Chefe do Departamento de Gestão Territorial do SGB, Diogo Rodrigues, explicou que o mapeamento de áreas de risco geológico é desenvolvido em parceria com as Defesas Civis municipais, principalmente em regiões onde existem edificações nas quais há permanência humana, a fim de classificar essas áreas sejam estes de risco alto e muito alto como prevê s diretrizes da Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (Lei 12.608/2012).

“A identificação de áreas de risco é feita em campo e se baseia na observação das características morfológicas do terreno, na identificação de indícios de instabilidade de taludes e encostas, no histórico de ocorrência dos eventos adversos de natureza geológica, e no grau de vulnerabilidade das construções e de seus moradores. Estes documentos, além de serem disponibilizados em primeira mão aos municípios contemplados, também alimentam um banco de dados compartilhado com órgãos governamentais responsáveis pelo monitoramento e alerta de desastres.”, destacou.

Ao todo 1.942 municípios brasileiros estão na lista de áreas suscetíveis à possíveis ocorrências de deslizamentos, enxurradas e inundações e assim serem priorizados nas ações da União em gestão de risco e de desastres. Deste total, 172 são municípios paulistas, dos quais 20 pertencem a RMVale.

Lista de municípios monitorados será ampliada 

Na segunda-feira (17) durante lançamento do sistema GeoRisk, que promete aumentar a antecedência na previsão de deslizamentos de terra de 24 para 72 horas, a ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos informou que o governo Federal incluirá mais 772 municípios, com alto risco de deslizamentos, enxurradas e inundações, na lista de cidades monitoradas pelo Cemaden.