Comunidades tradicionais cobram voz antes de nova expansão do petróleo

O Ministério Público Federal (MPF) quer que a Justiça suspenda imediatamente a licença ambiental que liberou a expansão da exploração de petróleo e gás na Bacia de Santos. O pedido muda o ritmo do projeto conhecido como Etapa 4 do pré-sal, e afeta diretamente o Litoral Norte de São Paulo, onde vivem pescadores artesanais, caiçaras, quilombolas e indígenas.
O principal ponto da disputa está em quem é ouvido antes que um projeto desse tamanho avance. Segundo o MPF, a licença chegou sem transparência, sem tempo para análise e, principalmente, sem consultar quem vive há gerações na região.
Por que isso importa para o Litoral Norte
A decisão mexe com a rotina de várias comunidades. Isso acontece porque o pré-sal, embora fique no mar e longe da costa, traz impactos que chegam à vida diária de quem depende do território — especialmente pesca, agricultura tradicional e turismo comunitário.
Assim, qualquer mudança na atividade das plataformas pode alterar desde a renda das famílias até a segurança alimentar. Por isso, o MPF afirma que ninguém pode tocar o projeto enquanto os povos tradicionais não forem consultados, como manda a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, em vigor no Brasil há mais de 20 anos.
Essa consulta precisa ser prévia, livre e informada, ou seja: as comunidades devem receber explicações claras, tempo para entender e espaço real para opinar. Só depois disso o governo pode seguir adiante.
O que está em jogo nas comunidades tradicionais
O Litoral Norte vive da pesca artesanal, e ela já sofre com navios de apoio, áreas proibidas para navegação e mudanças no fundo do mar. Conforme os estudos citados pelo MPF, a Etapa 4 pode aumentar esses problemas, reduzindo o espaço seguro para pescar e elevando o risco de acidentes.
Além disso, possíveis vazamentos de óleo — inclusive dos navios que transportam o produto — podem afetar o pescado, a água e até o turismo. O MPF aponta que o estudo ambiental entregue pela Petrobras não considerou todas as situações de risco.
Os povos originários e as comunidades caiçaras mantêm práticas que dependem do território, como agricultura, pesca, festas tradicionais e manejo do ambiente. Por isso, qualquer mudança forçada no espaço onde vivem pode enfraquecer tradições e modos de vida.
Por que o MPF diz que a licença é irregular
O MPF afirma que o Ibama abriu um processo paralelo, acelerou tudo em apenas 11 dias e liberou a licença antes de cumprir várias etapas. Além disso, segundo o documento, faltam estudos completos sobre impactos sociais e ambientais, e muitos problemas anteriores já haviam sido identificados em etapas anteriores do pré-sal.
Por tudo isso, o MPF quer que:
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o Ibama anule a licença concedida;
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o governo e a Petrobras não avancem no projeto até ouvir as comunidades;
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seja criado, em até 60 dias, um plano oficial de consulta;
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um novo Estudo de Impacto Ambiental seja feito, incluindo riscos ignorados;
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os órgãos envolvidos melhorem os planos de emergência para vazamentos;
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o governo e a Petrobras paguem R$ 5 milhões por danos a essas comunidades.
O que pode acontecer agora
Se a Justiça aceitar o pedido, o projeto da Etapa 4 para. Isso significa que:
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Não entram novas plataformas, nem novos poços.
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As comunidades passam a participar das decisões, como exige a lei.
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Um novo estudo ambiental precisa mostrar, com clareza, todos os riscos.
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O governo terá de criar regras mais sólidas para evitar danos futuros.
Por outro lado, caso a Justiça não suspenda a licença, o projeto segue em frente, mas a disputa deve continuar em outras instâncias.
Próximos passos
O juiz federal deve analisar o pedido de liminar, que é uma decisão rápida. Depois disso, mesmo que a suspensão saia logo, o processo completo continua. Enquanto isso, o assunto deve permanecer no centro do debate no Litoral Norte, já que envolve não só o ambiente, mas direitos históricos de comunidades que vivem na região muito antes da chegada da indústria do petróleo.
O outro lado
A reportagem da CBN Vale entrou em contato com a Petrobras, que por meio de nota informou que cumpre todas as normas ambientais, colabora com as autoridades e defende que o projeto questionado é essencial para a segurança energética do país.
Nota Oficial
“A Petrobras respeita a atuação institucional do Ministério Público Federal (MPF) no controle da legalidade dos atos administrativos. A empresa permanece colaborando com informações sempre que solicitada pelas autoridades competentes.
A companhia obteve a Licença Prévia da Etapa 4 após atender a todas as exigências do Ibama e da legislação ambiental vigente. As operações offshore da Petrobras são realizadas em total conformidade com as normas atuais, seguindo as melhores práticas ambientais e de segurança operacional do setor energético. Os projetos da Etapa 4 integram o Plano de Negócios 2026-2030 (PN 2026‑30), aprovado pelo Conselho de Administração da Petrobras, que prevê Capex total de US$ 109 bilhões (2026-2030). O projeto é essencial para a garantia da segurança energética do país. No horizonte do plano, a Petrobras mantém a ambição de pico de produção própria de 2,7 milhões bpd de óleo em 2028 e 3,4 milhões boed (óleo + gás) em 2028 e 2029, conciliando crescimento com resiliência econômica e ambiental.”