Saúde mental: transtornos não saem do foco das redes sociais

Pessoa mexendo no celular
(Foto: FrePik / Saúde mental é pauta fixa das redes sociais

No dia 10 de outubro foi celebrado o Dia Internacional da Saúde Mental, data que reforça a necessidade do diálogo sobre os transtornos psicológicos. Em tempos de fácil acesso às redes sociais, a conversa sobre saúde mental se faz ainda mais presente: não é difícil encontrar conteúdo nas plataformas sobre problemas emocionais e neurológicos. 

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Ainda que esse tipo de conteúdo funcione como alerta para pessoas que têm dificuldade no convívio social, a desinformação corre solta pelos perfis. Faça o teste: pesquise TDAH, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, no TikTok. O resultado? Milhares de vídeos, tanto de profissionais quanto de pessoas comuns, descrevendo os sintomas da condição neurológica que afeta cerca de 2 milhões de pessoas no Brasil, segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção. A pegadinha é que muitos dos comportamentos citados são perfeitamente normais, replicados por pessoas neurotípicas todos os dias. 

Dentro dos consultórios 

A psiquiatra Karoline Modesto Alvarenga (CRM 173538), coordenadora da residência médica do Hospital Francisca Júlia em São José dos Campos, conta que é comum pacientes chegarem ao consultório contando que se relacionam com sintomas que encontraram on-line.

A faixa etária é diversa. “Há muitos pais que procuram o sintomas para que consigam mais recursos para ajudar seus filhos, assim como adolescentes e adultos que procuram ativamente esses sintomas quando encontram algum conteúdo que desperte a atenção. A internet é incrível pela facilidade no acesso às informações, mas nem todas são boas. Testes rápidos para a pessoa saber se tem algum transtorno, por exemplo, são muito comuns, mas sem a avaliação profissional não têm validade nenhuma”, reforça a especialista. 

Fora dos consultórios 

Foi exatamente um desses testes que levou Diego Andrade, bacharel em Letras, ao consultório psiquiátrico. “Sempre tive muita dificuldade dentro dos meus relacionamentos, principalmente amorosos. Nunca fui agressivo, mas sentia raiva constante em situações completamente normais, e vivia engolindo o sentimento. As pessoas precisavam pisar em ovos para falar comigo, além do meu humor oscilar a todo momento”, conta. 

Ao pesquisar os sintomas, encontrou um velho conhecido: o Transtorno de Personalidade Borderline se encaixava perfeitamente nas queixas de Diego, que já tinha ouvido falar da condição pela irmã, diagnosticada no ano passado. O resultado do teste on-line serviu de gatilho para a visita ao psiquiatra, mas o diagnóstico foi de depressão e ansiedade. É comum, inclusive, que pessoas com esse transtorno sejam erroneamente colocadas dentro dessas caixinhas pela dificuldade do diagnóstico.

Não satisfeito, Diego procurou uma nova opinião. “Eu sabia que aquilo (diagnóstico) não era o bastante. Não fazia sentido”. Dessa vez, teve suas suspeitas confirmadas, e hoje faz tratamento medicamentoso com reguladores de humor e antidepressivos.

“É preciso parcimônia ao pesquisar sobre esse assunto on-line, mas ter feito isso mudou a minha vida. Eu não sou um diagnóstico e nem me resumo como borderline, mas a pesquisa me deu a possiblidade de entender que eu enxergo o mundo diferente do que as outras pessoas, e que há um caminho para encontrar o equilíbrio. Agora tenho as ferramentas necessárias para mudar meu comportamento”, diz o letrólogo. 

Na contramão

Já Nickolas Peres, gerente de contas em um banco privado, fez o caminho inverso: mesmo recebendo o diagnóstico de Transtorno Afetivo Bipolar de cinco profissionais da saúde, só acreditou após vasculhar a internet atrás de artigos sobre o tema. “Procurei o psiquiatra porque achava que a dificuldade para controlar o meu humor era apenas uma fase. Comecei a tomar alguns remédios e quando retornei ao consultório para renovar a receita, o médico indicou que os sintomas que descrevi eram de mania, um dos estágios do ciclo de humor dos bipolares”, conta. 

A ausência de episódios depressivos foi um dos motivos da rejeição. Geralmente, os diagnosticados com bipolaridade têm dois tipos de humor, variando entre depressão e euforia, com ciclos que podem durar dias, semanas ou meses.

O diagnóstico para o transtorno também é complicado, e a falta de tratamento medicamentoso pode levar à esquizofrenia e comumente ao suicídio: as taxas de brasileiros bipolares que atentam contra a própria vida varia de 30% a 50%, segundo a Associação Brasileira de Transtorno Bipolar.

Pesquisando sobre o tema, Nickolas descobriu que faz parte de um tipo específico de bipolar, que permanece em mania por muito mais tempo que o comum. Aceito o diagnóstico, hoje o bancário faz tratamento com reguladores de humor.

Equilíbrio é a chave 

Lucas Rabelo Fabiano, psicólogo da Unidade Municipal de Saúde da Família do bairro Parque Imperial em Jacareí (CFP 177200), reforça a necessidade dos profissionais de saúde explicarem a diferença entre transtornos emocionais e comportamentos comuns aos humanos.

“Todos os dias alguém senta na cadeira na minha frente dizendo ser depressivo, ansioso ou bipolar. É muito raro algum paciente ter um laudo constatando, de fato, algum transtorno. Muitas das queixas são apenas reflexos da vida, afinal, todos passamos por frustrações. Para chegar a um transtorno, a situação já está agravada. É preciso uma investigação minuciosa para dar qualquer diagnóstico, isso em toda a área da saúde”, afirma. 

Ainda que a internet seja uma excelente ferramenta, é preciso equilíbrio no uso das redes em prol da saúde mental. “Faça pausas frequentes, pratique exercícios físicos e lembre de respirar corretamente, inspirando pelo nariz e soltando pela boca. Uma rotina de alongamentos, por exemplo, já é de grande ajuda para preservar a saúde física e mental”, destaca Rabelo. 

Uma boa dica para quem gosta de procurar sobre o assunto on-line é sempre buscar fontes confiáveis. “Procure conteúdos feitos por médicos, sempre indicando o CRM e que reforçam a necessidade da avaliação profissional”, recomenda a psiquiatra Karoline Alvarenga. 

Em casos de emergência e necessidade de acolhimento emocional, use os serviços do CVV, Centro de Valorização da Vida, através do número 188, e não deixe de buscar atendimento atendimento médico e psicológico.