Relatório de comissão aponta que JK foi assassinado pela ditadura na Via Dutra

JK em visita ao exterior
Foto: Agência Nacional

Um relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek morreu em 1976 em uma ação ligada à ditadura militar. Assim, o documento contraria a versão oficial de acidente automobilístico divulgada na época. A comissão ainda votará o relatório.

A historiadora Maria Cecília Adão escreveu o documento, que reúne mais de 5 mil páginas. Segundo o texto, existem elementos para responsabilizar o Estado brasileiro pela morte de JK. O ex-presidente morreu em 22 de agosto de 1976, na Rodovia Presidente Dutra, em Resende (RJ). Na ocasião, JK tinha 73 anos. Além disso, o motorista e amigo dele, Geraldo Ribeiro, também morreu.

Durante a ditadura, investigadores afirmaram que um ônibus atingiu o carro de JK durante uma ultrapassagem. Depois disso, o Opala atravessou o canteiro central e bateu em uma carreta. Na época, laudos de 1976 e 1996 sustentaram essa versão. Posteriormente, a Comissão Nacional da Verdade também adotou esse entendimento em 2014.

Foto: Ilustração de laudo em 1976 e Modelagem 3D em 2019 / RicardoDachtelberg

No entanto, novas análises técnicas passaram a contestar a versão oficial. O engenheiro Sergio Ejzenberg realizou um estudo a pedido do Ministério Público Federal (MPF). Segundo ele, o ônibus não bateu no carro de JK. Além disso, o relatório aponta que o veículo perdeu o controle antes da colisão com a carreta. Por isso, os investigadores analisam hipóteses como sabotagem mecânica, tiro ou envenenamento do motorista.

Pesquisadores da USP e da Universidade Mackenzie apoiaram essa linha de investigação. Da mesma forma, as comissões da verdade de São Paulo e Minas Gerais chegaram a conclusões semelhantes sobre o caso.

Foto: Reprodução | Comissão da Verdade Vladimir Herzog

Falhas graves na investigação

Além disso, o inquérito civil do MPF identificou falhas nas investigações feitas durante a ditadura. O órgão destacou a falta de exames toxicológicos em Geraldo Ribeiro. Ao mesmo tempo, o relatório criticou a qualidade das perícias realizadas naquele período.

O texto também relembra o cenário político da época. Após o golpe militar de 1964, JK perdeu os direitos políticos. Anos depois, em 1976, ele integrava a Frente Ampla, grupo de oposição ao regime militar. Além disso, o relatório menciona a Operação Condor, criada para perseguir opositores políticos na América do Sul.

Se a comissão aprovar o relatório, a CEMDP poderá recomendar a alteração da certidão de óbito de JK e Geraldo Ribeiro. Dessa forma, a proposta reconhecerá oficialmente que as mortes ocorreram por perseguição política durante a ditadura.

Foto: Gute Garbelotto/CMSP | Josias, motorista de ônibus, e vereador Natalini em sessão da Comissão da Verdade

Comissão Vladimir Herzog já apontava atentado

A suspeita de atentado contra JK surgiu anos antes do novo relatório. Em 2014, a Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, da Câmara Municipal de São Paulo, concluiu que JK e Geraldo Ribeiro foram vítimas da ditadura militar.

Na época, os integrantes da comissão contestaram a versão de acidente de trânsito. Além disso, o grupo apontou possíveis ligações entre a morte de JK e a Operação Condor. Ao longo da investigação, os integrantes reuniram depoimentos e perícias que levantaram dúvidas sobre os laudos produzidos durante a ditadura.

Um dos principais relatos veio do motorista do ônibus da Viação Cometa, Josias Nunes de Oliveira. Segundo ele, não houve colisão entre o ônibus e o carro de JK no momento do acidente.

Por fim, a comissão criticou a condução das investigações feitas durante o regime militar. De acordo com o colegiado, autoridades ignoraram provas importantes e inconsistências presentes nos laudos técnicos.