
A professora Michele Ramos, de 42 anos, afirmou que ainda vive um misto de frustração, raiva, tristeza profunda e incerteza após descobrir que alunos do 8º ano colocaram um pedaço de vidro em seu copo com água dentro durante uma aula de ciência na EMEFI Ildete Mendonça Barbosa, no Parque Residencial União, zona sul de São José dos Campos.
Em entrevista à reportagem da CBN Vale, Michele relatou que ainda não conseguiu processar completamente o que aconteceu desde a manhã de terça-feira (30), quando sofreu um colapso nervoso após o episódio.
Segundo ela, desde então tem enfrentado dificuldade para dormir e se alimentar, além de reviver constantemente o caso por conta da grande repercussão gerada.
“No momento eu sinto um misto de frustração, de raiva, uma tristeza profunda, uma dúvida do que vai acontecer daqui pra frente, não consegui ter tempo de parar pra processar essas coisas, eu só consegui dormir um pouco, não consigo me alimentar direito porque é um looping essa informação que eu tenho que ficar fazendo essas entrevistas e falando sobre isso”, desabafou Michele.
A professora revelou ainda que o primeiro contato da Secretaria de Educação e Cidadania ocorreu apenas na manhã desta quinta-feira (2), quando recebeu uma ligação por volta das 9h30.
Segundo Michele, ela foi convocada para uma reunião no período da tarde de hoje com a chefe da divisão de ensino fundamental. Até então o acolhimento havia partido apenas da própria escola, que, segundo a professora, fez os encaminhamentos que estavam ao seu alcance.
Apoio de terceiros e registro de B.O
A professora também destacou que o apoio jurídico que recebeu até agora partiu de advogados que a procuraram por meio das redes sociais e de sindicatos de servidores, que passaram a acompanhá-la desde o início das tratativas e que estiveram, inclusive, na Secretaria de Educação.
Michele informou ainda que registrou boletim de ocorrência contra um dos alunos envolvidos no caso. Segundo ela, inicialmente só tinha conhecimento da participação de um estudante, apontado como responsável por colocar o vidro no copo. Posteriormente, após apuração da escola, foi informada de que havia pelo menos mais um aluno envolvido, seja por participação direta, por incentivo ou por omissão diante da situação.
Ela também ressaltou que outros estudantes da sala sabiam da presença do vidro no copo e só a avisaram depois, o que agravou o impacto emocional do episódio.
“Eu registrei um boletim de ocorrência contra o aluno que colocou o vidro, contra um deles só porque eu não tinha conhecimento ainda no momento.
Depois da apuração da escola, de que tinha um outro que também estava envolvido fazendo alguma coisa junto, ou que tinha falado para colocar o vidro e o outro que tinha acobertado, e muitos da sala também sabiam que tinham o vidro no copo, que só me avisaram depois”, explicou Michele.

Abalo
Abalada, a professora afirmou que, neste momento, não tem vontade de retornar à sala de aula e que precisa se afastar. Segundo ela, a situação provocou um trauma cuja dimensão ainda não consegue medir e que deve buscar ajuda psicológica e psiquiátrica para enfrentar o episódio sem que ele deixe marcas ainda mais profundas. Michele disse, inclusive, que ainda não sabe se conseguirá voltar a dar aulas.
“É uma sensação de tristeza profunda, não tenho vontade de voltar para sala de aula nesse momento, preciso me afastar um pouco. É um trauma que eu não sei o tamanho ainda de mencionar, eu vou precisar de ajuda psicológica, psiquiátrica para passar por isso sem criar uma ferida tão profunda e não sei se eu volto”, disse a professora.
Ao comentar o ambiente escolar, a docente afirmou que o caso não pode ser tratado como um fato isolado e nem normalizado. Segundo ela, profissionais da educação convivem diariamente com diferentes formas de violência, tanto física quanto moral, especialmente em áreas ligadas ao ensino infantil, anos iniciais e educação especial, onde os desafios são ainda maiores por conta da imaturidade dos alunos e das demandas emocionais envolvidas.
“São violências que a gente vai passando diariamente e a gente não pode naturalizar. A violência física, também moral, as famílias também vêm com uma carga, muitas vezes, não dão conta de educar seus filhos e a gente tem que fazer isso na sala também, além de toda nossa distribuição, lidar com uma série de coisas, transtornos que eles também têm, situações péssimas que eles passam, então nosso trabalho é mais do que ensinar um conteúdo e tem dia que a gente simplesmente não aguenta a pressão”
O caso
O caso aconteceu na EMEFI Ildete Mendonça Barbosa, no Parque Residencial União. Michele contou que não chegou a beber a água porque percebeu uma movimentação incomum entre os estudantes e decidiu verificar o copo antes.
Em nota, a Prefeitura de São José dos Campos informou que lamenta o ocorrido. Segundo a administração municipal, a equipe gestora da escola prestou atendimento imediato à professora e a encaminhou para atendimento médico.
A Secretaria de Educação e Cidadania também convocou as famílias dos três alunos envolvidos, suspendeu os estudantes até o fim do semestre e encaminhou o caso aos órgãos competentes para as providências cabíveis.
A Prefeitura afirmou ainda que situações dessa natureza recebem tratamento rigoroso, com aplicação dos protocolos de segurança e assistência previstos, para preservar a integridade física e emocional dos profissionais da rede municipal de ensino.
