
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou nesta sexta-feira (24) a demora para encontrar uma solução para a crise da Avibras, empresa brasileira do setor de defesa instalada em Jacareí (SP). Durante visita à unidade, Lula afirmou que a paralisação da companhia não tinha justificativa política, econômica ou social e também não fazia sentido do ponto de vista da soberania nacional.
Impaciência com a demora da solução
O presidente afirmou que ficou irritado em diversas ocasiões com a demora para encontrar uma solução, especialmente porque, segundo ele, havia interesse de diferentes setores do governo e das Forças Armadas na preservação da empresa.
“Quero dizer pra vocês que muitas vezes eu fiquei muito puto da vida. Como é que se demora tanto pra resolver um problema que as Forças Armadas queriam, que o presidente queria, que o ministro da Defesa queria, que o vice-presidente queria, que o BNDES queria, que o ministério queria e não acontecia?”, questionou.
Na sequência, Lula voltou a resumir sua irritação com a sucessão de obstáculos: “Muitas vezes eu fiquei muito puto da vida”.
A Avibras permaneceu com as atividades paralisadas por mais de três anos, em meio a uma crise financeira que também afetou os trabalhadores. Durante o período, funcionários chegaram a ficar 36 meses sem receber salários. A retomada das atividades ocorreu em maio, após um acordo para o pagamento de dívidas trabalhistas estimadas em cerca de R$ 230 milhões.
Lula também relacionou a situação da Avibras à necessidade de o Brasil fortalecer sua indústria de defesa e manter capacidade própria para proteger o território e os recursos estratégicos do país. O presidente afirmou que, em uma eventual guerra, os gastos seriam elevados e que o país precisaria estar preparado.
“Quando tem uma confusão, ninguém fica perguntando se tem dinheiro ou não tem dinheiro, ou você arruma ou você está ferrado”, afirmou.
Lula destacou que a Avibras acumulou, ao longo dos anos, conhecimento tecnológico considerado estratégico para o país e criticou o fato de uma empresa com essa capacidade ter permanecido paralisada e em processo de deterioração.
“A gente tinha um país que tinha uma empresa que tinha acumulado o conhecimento tecnológico da Avibras, que produzia uma coisa tão importante para a segurança do país, paralisada, sendo destruída”, disse.
Segundo o presidente, na época em que a empresa enfrentava uma grave crise financeira, os dois maiores credores eram o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Ministério da Defesa. Lula afirmou que chegou a sugerir que os órgãos procurassem a Justiça para assumir o controle da empresa como credores e, posteriormente, definir o que seria feito.
“Eu, na época, cheguei até a sugerir para eles que os dois deveriam falar com o juiz, assumir o controle da Avibras como credores da empresa e depois a gente ia ver o que a gente ia fazer”, relatou.
Na avaliação de Lula, no entanto, a solução acabou esbarrando em uma sequência de entraves burocráticos e jurídicos. O presidente afirmou que, a cada tentativa de avanço, novos pareceres e restrições eram apresentados.
“Quando a gente faz um arranjo, depois o Ministério da Defesa vai conversar com os assessores dele. Ele vai com a burocracia em campo. E, quando a burocracia entra em campo, aparece o procurador-geral da Fazenda, que diz que não pode ser feito. Aparece o procurador do ministério, o advogado, que diz que não pode ser feito. E as coisas vão se arrastando”, afirmou.

Investimentos e defesa do território
O presidente voltou a defender investimentos nas Forças Armadas e na indústria nacional diante das dimensões do território brasileiro e da quantidade de recursos naturais estratégicos existentes no país. Ele citou as reservas de minerais críticos, as terras raras, as florestas e a disponibilidade de água doce.
Lula também fez uma comparação para defender a importância de manter uma estrutura de defesa, mesmo em períodos sem conflitos.
“A gente conversa com algumas pessoas, (que dizem) ‘vai ter que gastar dinheiro com Forças Armadas, para que? Não precisamos disso’. Eu sempre falo o seguinte: as Forças Armadas é que nem Deus, você pode não acreditar, mas quando você tiver a primeira dor de barriga, você vai ‘ai meu Deus’”, disse.
A declaração ocorreu durante a visita do presidente à Avibras Aeroespacial, em Jacareí. A empresa desenvolve tecnologias para os setores de defesa e espaço, com produtos como mísseis, foguetes e veículos espaciais. Os equipamentos são destinados às Forças Armadas brasileiras e também ao mercado internacional.
