Exclusivo: Maria da Penha reforça importância da rede de proteção às mulheres

Foto: Reprodução / CBN Vale

A ativista pelos direitos das mulheres Maria da Penha Maia Fernandes afirmou que ainda é necessário ampliar a conscientização e fortalecer as políticas públicas de combate à violência doméstica no Brasil. Em entrevista ao programa CBN Na Rede, nesta quarta-feira (8), ela destacou os avanços conquistados após a criação da Lei Maria da Penha, que completa 20 anos em agosto. No entanto, ressaltou que muitas mulheres ainda enfrentam dificuldades para denunciar seus agressores.

A entrevista ocorreu em um momento simbólico para a luta contra a violência de gênero. Nesta semana, o Instituto Maria da Penha completou 17 anos de atuação. Desde a fundação, a entidade desenvolve ações de educação, conscientização e orientação para mulheres, empresas e instituições.

Medo e dependência dificultam denúncias

Durante a entrevista, Maria da Penha explicou que a legislação trouxe avanços importantes. Entretanto, muitas vítimas continuam em relacionamentos abusivos por medo, dependência financeira ou esperança de que o agressor mude de comportamento.

Segundo ela, a violência doméstica segue um ciclo repetitivo. Após uma agressão, o autor costuma pedir perdão e prometer que não voltará a agir da mesma forma. Como consequência, muitas mulheres adiam a denúncia e permanecem expostas aos riscos.

A ativista também destacou que a violência psicológica é uma das formas mais difíceis de identificar e denunciar. Isso ocorre porque ela não deixa marcas físicas. Ainda assim, humilhações, ameaças, controle excessivo e desvalorização constante comprometem a autoestima da vítima e dificultam o rompimento da relação.

“Ela não tem aquela condição de sair daquela relação, porque ela não tem renda, ela depende financeiramente do marido e ele anulou de tal maneira que muitas vezes essa mulher larga até o emprego”, afirmou Maria da Penha.

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Foto: Mônica Tavares

Sociedade também precisa agir

Maria da Penha reforçou que a violência contra a mulher deixou de ser uma questão privada. Por isso, familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho devem agir ao identificar uma situação de abuso.

Ela lembrou que o antigo ditado “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” não deve mais ser aceito. Hoje, segundo ela, toda a sociedade tem responsabilidade na proteção das vítimas.

“A gente mete a colher, sim. A gente tem que dar apoio a uma vizinha, a uma parenta, a uma amiga, a uma colega que vive situação de violência, para que ela saia daquela situação e recomece a sua vida”, afirmou.

Além disso, a ativista chamou atenção para as novas formas de violência praticadas pela internet. Segundo ela, discursos de ódio, conteúdos machistas e ataques contra mulheres nas redes sociais exigem maior fiscalização e responsabilização dos autores.

Empresas e escolas podem ajudar na prevenção

À frente do Instituto Maria da Penha, a ativista destacou projetos voltados à educação e à conscientização. Entre eles, está a capacitação de empresas para identificar sinais de violência doméstica entre funcionárias e oferecer acolhimento.

Segundo Maria da Penha, o ambiente de trabalho pode ser decisivo para romper o ciclo de violência. Muitas vezes, colegas percebem mudanças de comportamento, queda no rendimento, faltas frequentes e isolamento antes mesmo da vítima pedir ajuda.

Além disso, algumas empresas oferecem suporte para facilitar o afastamento do agressor. Em determinados casos, a funcionária pode até ser transferida para outra unidade da empresa.

O Instituto também desenvolve projetos educativos em escolas. As atividades utilizam cordel e música para conscientizar crianças e adolescentes sobre respeito às mulheres, igualdade e prevenção da violência. Mais informações sobre como implantar as atividades, podem ser obtidas pelo e-mail: [email protected].

Foto: Arquivo Pessoal

“Procure ajuda antes que aconteça o feminicídio”

Ao final da entrevista, Maria da Penha deixou um recado para mulheres que enfrentam situações de violência e ainda não conseguiram pedir ajuda.

A ativista orientou que as vítimas não esperem uma mudança de comportamento do agressor. Em vez disso, recomendou buscar apoio de pessoas próximas e dos serviços especializados.

“Não persista em querer que o seu agressor mude de comportamento, porque ele já lhe prometeu várias vezes e isso não aconteceu”, afirmou.

Segundo Maria da Penha, mulheres em situação de violência têm direito a medidas protetivas e atendimento especializado. Elas também podem contar com psicólogos, assistentes sociais e advogados. Dessa forma, conseguem construir um plano seguro para deixar o relacionamento abusivo e reconstruir a própria vida.

Assista a entrevista completa