
O escritor e educador Daniel Munduruku, liderança indígena do povo Munduruku e referência na luta pelos direitos dos povos originários, criticou duramente a política indigenista brasileira ao longo da história e classificou o Marco Temporal como uma tentativa inconstitucional de retirar direitos assegurados pela Constituição.
Durante entrevista à rádio CBN Vale, nesta sexta-feira (25), ele explicou que o Brasil teve, até hoje, três grandes políticas voltadas aos povos indígenas. A primeira foi de extermínio, marcada por perseguições e massacres. “O que foram as entradas e as bandeiras que a gente aprende na história? Exatamente isso”, disse.
Na segunda fase, segundo ele, o Estado adotou uma política assimilacionista: aldeias eram transformadas em vilas e depois em cidades, forçando os indígenas a assumirem a identidade de “cidadãos”, sob pena de perseguição caso resistissem à “civilização”.
A terceira fase, a política integracionista da República, também foi alvo de críticas: “É a ideia de que o índio precisa se integrar à sociedade brasileira, mas de tal maneira que ele deixe de ser indígena e siga as regras”, explicou. Para ele, a chamada “civilização” significava abandonar a própria cultura e seguir o código civil da cidade — caso contrário, o indígena era tratado como marginal.
Marco Temporal é tentativa de apagar direitos
Sobre o Marco Temporal das Terras Indígenas, atualmente em debate no país, Daniel foi categórico: “O Marco Temporal é uma afronta à Constituição Nacional. A Constituição garante que os indígenas têm direito à sua terra, ponto final. Qualquer tentativa de destruir isso é fazer uma afronta àquilo que a Constituição já garantiu há 37 anos.”
Ele criticou a manobra de parlamentares que, mesmo após o Supremo Tribunal Federal (STF) declarar a tese inconstitucional, aprovaram um projeto de lei para validá-la. “É o desejo de fazer com que os indígenas não tenham mais direito aos seus territórios, que os territórios possam ser explorados pelo capital, pelo sistema capitalista. E é claro que os indígenas vão se rebelar contra isso o tempo todo.”

A educação como ferramenta contra estereótipos
Daniel Munduruku destaca a importância da educação para combater os estereótipos negativos que muitos jovens têm sobre os povos indígenas. Ele afirma que esses estereótipos surgem da falta de conhecimento real sobre as culturas indígenas.
Para Munduruku, a educação é essencial para desmistificar essas concepções errôneas e mostrar a verdadeira diversidade e riqueza cultural dos povos originários. Ele acredita que, ao aprender sobre a história e os costumes indígenas, é possível eliminar esses preconceitos e promover uma visão mais justa e respeitosa.
Homenagem em Lorena – Munduruku
Ao final da entrevista, Daniel convidou a população para participar do ato solene em homenagem aos povos indígenas, marcado para o dia 29 de abril, às 14h, na Câmara Municipal de Lorena. “Mesmo quem não é de Lorena pode ir lá prestigiar a gente, prestigiar essa nossa iniciativa.”