Desembargadora que liberou bets tem histórico de investigações, críticas ao PT e elogios a Bolsonaro, diz site

Adriana Pileggi já foi alvo de denúncias e processos disciplinares. Segundo reportagens do ICL Notícias e do JOTA, magistrada também publicou críticas ao PT e manifestações favoráveis à família Bolsonaro nas redes sociais.

Desembargadora federal Adriana Pileggi / Crédito/ Ascom/TRF3

A desembargadora federal Adriana Pileggi de Soveral, responsável por autorizar a retomada das atividades de três plataformas de apostas online, acumula um histórico de investigações, denúncias judiciais e processos disciplinares, segundo reportagens publicadas nesta sexta-feira (6) pelo ICL Notícias e pelo JOTA. A magistrada também teria compartilhado publicações contra o Partido dos Trabalhadores (PT) e em defesa da família Bolsonaro. Nesta sexta-feira (06), o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), em São Paulo, derrubou a decisão da magistrada.

De acordo com o ICL Notícias, a integrante do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) já foi investigada por suspeitas de corrupção, enriquecimento ilícito, irregularidades patrimoniais e abuso de autoridade.

Parte dos procedimentos terminou em arquivamento ou anulação. Outros tiveram desdobramentos judiciais, sem que as informações disponíveis permitam confirmar condenações definitivas relacionadas às acusações.

A repercussão ocorre após Pileggi conceder, na terça-feira (3), uma decisão provisória que permitiu o retorno das plataformas Casa de Apostas, Betsul e Jogo Online, pertencentes à empresa CDA Gaming.

A decisão afastou, exclusivamente para a empresa, os efeitos da Medida Provisória 1.394/2026, editada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para proibir as apostas online.

Magistrada já foi denunciada por suspeita de corrupção

Segundo levantamento publicado pelo ICL Notícias, um dos principais episódios envolvendo Adriana Pileggi ocorreu durante a Operação Anaconda, investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de comercialização de decisões judiciais.

Em junho de 2005, o TRF-3 recebeu uma denúncia do Ministério Público Federal contra a então juíza por suspeita de corrupção passiva, relacionada a um possível favorecimento ao ex-prefeito e ex-governador paulista Paulo Maluf.

Na ocasião, o tribunal determinou seu afastamento das funções judiciais.

Entretanto, em outubro de 2006, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou a sessão que havia recebido a denúncia. A decisão permitiu o retorno da magistrada às atividades.

Ainda segundo o ICL, o TRF-3 havia reconhecido, em 2003, a suspeição da juíza em dois processos relacionados a Maluf, retirando-a da análise desses casos. A defesa de Pileggi sustentou, na época, que os procedimentos questionados eram regulares.

Suspeitas de enriquecimento ilícito e processos disciplinares

O ICL Notícias também identificou uma ação de improbidade administrativa apresentada pelo Ministério Público Federal em 2017, envolvendo suspeitas de enriquecimento ilícito.

O processo, de número 5026391-22.2017.4.03.6100, teve desdobramentos na Justiça Federal. Em 2019, uma decisão manteve a indisponibilidade de bens da magistrada.

A medida tinha caráter preventivo, para preservar patrimônio diante de uma eventual condenação. Portanto, não representava reconhecimento de culpa.

Em março de 2026, um recurso relacionado ao processo foi incluído na pauta da 6ª Turma do TRF-3. A reportagem do ICL informou que não conseguiu confirmar o resultado do julgamento.

Outro procedimento envolveu suspeitas de omissão de rendimentos nas declarações de Imposto de Renda.

Em 2015, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou o arquivamento do processo disciplinar porque havia terminado o prazo legal para aplicação de eventual punição.

O arquivamento ocorreu por prescrição, sem uma decisão definitiva sobre a existência das irregularidades investigadas.

O histórico também inclui uma fiscalização da Receita Federal que resultou em cobrança tributária inicialmente calculada em R$ 1,37 milhão, relacionada a supostas diferenças patrimoniais entre 2002 e 2004.

O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) acolheu parcialmente um recurso da magistrada em 2012 e determinou a revisão dos cálculos.

Foto: Reprodução/Portal JOTA

Publicações contra o PT e em defesa dos Bolsonaro

Além do histórico judicial, uma reportagem do portal JOTA, publicada nesta sexta-feira (6), revelou postagens e comentários atribuídos à desembargadora em seu perfil pessoal no Facebook.

Segundo o portal, Adriana Pileggi compartilhou imagens depreciativas de políticos ligados à esquerda e manifestações favoráveis à família Bolsonaro.

Em uma publicação de janeiro de 2021, a magistrada teria compartilhado uma montagem com um homem montado em um burro, associando o animal ao PT e o personagem ao então presidente Jair Bolsonaro.

Foto: Reprodução/Portal JOTA

Em outra discussão, Pileggi afirmou que não havia governo mais corrupto do que os do PT.

A reportagem também identificou comentários da desembargadora em defesa de garantias jurídicas de Flávio Bolsonaro, durante discussões sobre investigações envolvendo o então senador.

Em uma dessas manifestações, ela comparou os valores investigados no caso das chamadas rachadinhas com os desvios atribuídos a outros escândalos políticos.

O JOTA também identificou o compartilhamento de um vídeo descontextualizado do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o portal, o próprio Facebook classificou o conteúdo como informação falsa e apresentou uma checagem da Agência Lupa.

A maior parte das publicações identificadas é anterior a 2024. Pileggi ingressou na magistratura federal em 1992 e assumiu o cargo de desembargadora em 2023.

Decisão sobre bets será contestada pelo governo

Na decisão de terça-feira (3), Adriana Pileggi considerou que o governo federal não poderia interromper antecipadamente a autorização concedida à CDA Gaming sem estabelecer mecanismos de ressarcimento.

Segundo o ICL Notícias, a empresa havia pago R$ 30 milhões para operar no mercado brasileiro até 2029.

A desembargadora também questionou os fundamentos apresentados pelo governo para justificar a proibição das apostas online.

A decisão tem caráter provisório e beneficia exclusivamente as três marcas da empresa. O processo ainda depende de julgamento definitivo.

Nesta sexta-feira (6), a Advocacia-Geral da União (AGU) anunciou que recorrerá da liminar.

Justiça derruba decisão

O presidente do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) suspendeu a decisão da desembargadora Adriana Pileggi por entender que a manutenção da liminar poderia causar grave lesão à ordem pública. A suspensão vale até o fim definitivo da ação original ou até uma nova decisão da Presidência do tribunal.

O outro lado

Segundo o JOTA, a reportagem procurou Adriana Pileggi por meio do Facebook e de seu gabinete. Após as tentativas de contato, o perfil da magistrada na rede social passou a ser privado.

Até a publicação da reportagem, a desembargadora não havia respondido aos questionamentos encaminhados pelo veículo.

A CBN Vale tenta contato com a desembargadora federal Adriana Pileggi de Soveral para ouvir sua manifestação sobre as informações divulgadas, incluindo o histórico de investigações, os processos disciplinares e as publicações atribuídas a ela nas redes sociais. O espaço permanece aberto para seus esclarecimentos.