
Esse é o verso inicial de “Os Lusíadas“, um dos poemas mais importantes de toda Literatura Portuguesa, bem mais citado do que lido. Esse verso de “Os Lusíadas” foi inspirado em um outro poema, bem mais antigo, “Eneida“, composto por Virgílio por volta do século 1 antes de Cristo.
É desse poema que vem a expressão “as armas e os barões“, transformados, por Luís de Camões, nos feitos militares portugueses e nos homens valorosos que, ao lado de Vasco da Gama (o navegador, não o time de futebol), ampliaram o mundo conhecido no Ciclo das Grandes Navegações. O que isso tem a ver com a gente? Nada.
Ou, no universo do jornalismo brasileiro, tudo. “Os Lusíadas” foi a forma encontrada pelo “O Estado de S. Paulo” para tornar claro a seus leitores a ação severa da censura sobre os textos do jornal, nos tempos plúmbeos do AI-5 e da Ditadura Militar, anos 60 e 70. Falei bonito agora, plúmbeos, isto é, feito de chumbo ou cor de chumbo. Bem, naqueles Anos de Chumbo foram tantas as notícias censuradas (mais de 1.100), entre elas uma epidemia de meningite, que o “Estadão” acabaria publicando todo os 8.116 versos dos “Lusíadas”, inteiros, duas vezes, de dezembro de 1969 a janeiro de 1975, quando os censores saíram, finalmente, da Redação.
Dois anos depois, em 7 de junho de 1977, mais de 3.000 jornalistas assinaram um manifesto contra a censura, data em que hoje é comemorado o Dia Nacional da Liberdade de Imprensa.
Censura e jornalismo não rimam. São opostos. Afinal, informação é igual água: corre daqui, bate dali e sempre encontra um caminho. A gente que faz jornalismo político sabe muito bem. Tem hora que uma vai no cravo, tem hora que a outra vai na ferradura e segue o baile. Analisar, interpretar e noticiar requer compromisso pessoal com a informação. Não é mole não. Não dá para vestir camisa, ter time, muito menos ir com o freio de mão puxado.
Tem que separar opiniões pessoais de informação, eventuais afinidades do exercício do jornalismo. Para fazer errado, melhor recitar “Batatinha quando Nasce”. Eu, que já sou grandinho, prefiro recitar “Os Lusíadas”, em homenagem a quem não aceita censura.
Começa assim:
“As armas e os barões assinalados/ que da ocidental praia lusitana/ por mares nunca d’antes navegados/passaram ainda além da Taprobana.” Depois desse começo vêm mais 8.115 versos, mas, fique calmo, leitor, não vou recitar agora …
CBN Política Regional de 24 de Agosto de 2023
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