
Nascida no estado do Rio de Janeiro e radicada em São José dos Campos desde 1945, Ângela Savastano construiu uma trajetória marcada pelo amor às tradições populares, à memória coletiva e ao conhecimento partilhado. Vice-presidente do Centro de Estudos da Cultura Popular (CECP), ela é uma das principais responsáveis por preservar, documentar e valorizar o folclore brasileiro — especialmente no Vale do Paraíba — por meio de projetos pioneiros e de um olhar generoso sobre a diversidade cultural do país.
A folclorista morreu nesta terça-feira (05), aos 93 anos. A causa da morte não foi informada. O velório acontecerá no Cemitério Parque das Flores, nesta quarta-feira (6)..
Desde muito cedo, a observação da vida cotidiana despertou seu interesse por aquilo que mais tarde ela entenderia como folclore:
“Aos 14 anos, vi um moço com dor nas costas receber um benzimento. Aquilo me marcou”, contou. Mais tarde, já formada em Letras, iniciou um trabalho mais sistemático de registro de saberes populares. Em São José dos Campos, foi professora, pesquisadora, gestora e, sobretudo, apaixonada por gente e por histórias. Seu trabalho extrapola os limites da pesquisa acadêmica. Para Ângela, a cultura popular é viva e deve ser devolvida à comunidade que a produz.
Ângela fundou, junto a parceiros igualmente engajados, o Centro de Estudos da Cultura Popular, organização sem fins lucrativos responsável pela criação e manutenção do Museu do Folclore de São José dos Campos. “A ideia não era apenas fazer um acervo, mas criar um espaço de troca e valorização”, disse. O museu tornou-se referência nacional. É uma instituição que não apenas abriga objetos e documentos, mas promove encontros, oficinas, debates e vivências com mestres da cultura popular.

A pesquisadora entendia o museu como ferramenta transformadora:
“É um instrumento para trabalhar com o outro, para que o outro se sinta pertencente ao patrimônio que é dele”, afirmou durante a entrevista ao jornalista Marcelo Rocha, no programa CBN Na Rede. Para ela, o folclore não está apenas no passado, mas também no presente de quem vive, cria e transforma sua cultura no dia a dia. Assim, seu trabalho se aproxima do conceito de Ecomuseu, que considera não apenas os objetos, mas o espaço e as pessoas que os produzem e preservam.
Ao longo da entrevista, Ângela falou com emoção sobre os amigos que encontrou no estúdio da CBN, sobre as lembranças da infância e sobre o futuro que espera para o museu e para as novas gerações. Para ela, o conhecimento folclórico não deve ser engavetado, mas compartilhado, vivido e experimentado. “É bonito ver que as pessoas ainda se encantam com as coisas simples, com um bordado, uma história bem contada, um canto ancestral”, refletiu.
Seu legado é, portanto, mais do que institucional. É afetivo, social e político. Ângela Savastano é símbolo de resistência cultural, de generosidade intelectual e de compromisso com o outro.