Márcio Canella foi o segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro; investigação apura esquema que teria movimentado R$ 7,6 bilhões e usado 96 postos de combustíveis para lavar dinheiro

A Polícia Federal (PF) prendeu nesta quinta-feira (15) Márcio Canella (União Brasil), aliado de Flávio Bolsonaro (PL) e ex-prefeito de Belford Roxo (RJ), em uma operação que investiga uma organização criminosa armada suspeita de ligação com milícias e lavagem de dinheiro. A apuração aponta que o grupo teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos e utilizado uma rede de postos de combustíveis para ocultar recursos de origem criminosa.
Também foram presos o delegado Marcus Amim, ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro e ex-presidente do Detran-RJ, além de outros quatro investigados. A oitava fase da Operação Unha e Carne cumpre seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão em sete municípios fluminenses.

Esquema teria movimentado R$ 7,6 bilhões
Segundo a Polícia Federal, a Justiça determinou o bloqueio de bens e valores e a suspensão das atividades de 112 empresas ligadas ao esquema. Desse total, 96 são postos de combustíveis que, de acordo com as investigações, serviriam para disfarçar e legalizar dinheiro de origem criminosa. Os valores constam de um relatório de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Os investigados poderão responder por organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel, entre outros crimes. A participação de cada suspeito ainda será apurada.
Segundo deputado estadual mais votado do Rio
Presidente do União Brasil no estado, Canella recebeu 197.178 votos na eleição para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), tornando-se o segundo deputado estadual mais votado. Belford Roxo, município que administrou como prefeito, concentrou 133.956 votos válidos recebidos por ele.
Um levantamento do pesquisador Bruno Pantaleão, ligado a centros de pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV), aponta que 32,7% dos votos de Canella vieram de áreas dominadas por milícias, outros 32,7% de regiões controladas pelo Comando Vermelho e 17,6% de localidades sob influência do Terceiro Comando Puro.
Prisão anterior envolveu fuzil em carro
Em julho, Canella foi preso em flagrante durante uma fase anterior da operação, depois que agentes encontraram um fuzil Colt calibre 5.56, de uso restrito, em seu carro. Na ocasião, a Polícia Federal cumpria um mandado de busca e apreensão. Posteriormente, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), revogou a prisão preventiva.
A defesa do deputado afirmou que a arma estava acautelada para o policial militar responsável por sua escolta. Em setembro, o vereador Jorge Canella, coronel da reserva da PM, também foi preso em flagrante durante uma investigação sobre a origem do fuzil. Segundo fontes ouvidas pela reportagem do portal UOL, ele teria providenciado a arma para o aliado.

Mãe de Flávio Bolsonaro seria suplente
Antes de disputar novamente uma vaga na Alerj, Canella chegou a ser cotado para o Senado, com apoio de Flávio Bolsonaro. Rogéria Bolsonaro, mãe do senador e ex-mulher do ex-presidente Jair Bolsonaro, seria sua suplente na candidatura.
A Procuradoria Regional Eleitoral pediu o indeferimento da candidatura de Canella à Assembleia, citando a prisão anterior e investigações sobre possíveis ligações com o crime organizado. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro, porém, autorizou a candidatura, e ele conquistou o quarto mandato consecutivo. Canella nega as acusações de envolvimento com o crime organizado.
A operação integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela Polícia Federal para combater organizações criminosas no Rio de Janeiro. A investigação também apura possíveis relações entre integrantes do grupo, agentes públicos e estruturas políticas.
