
O colunista do quadro CBN Economia, professor José Joaquim do Nascimento, falou nesta quarta-feira (31), no programa CBN Vale 1ª Edição, sobre um tema que tem sido constantemente levantado pelos candidatos à presidência da república, a importância do agronegócio no país. O professor considera uma grande contradição, o setor do agro anunciar, assim como muitos políticos, que o Brasil ‘alimenta o mundo’, ao mesmo tempo em que milhões de brasileiros passam fome. Confira!
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A mensagem política de que o agronegócio brasileiro alimenta o mundo é apenas uma cortina de fumaça para esconder os custos para o Brasil da atividade agroexportadora, o que revela a grande contradição entre o grande produtor de grãos e ao mesmo tempo, o grande devastador do meio ambiente e gerador de pobreza.
O argumento é político, não tenhamos dúvidas. Propagar a ideia de que temos o destino-manifesto de alimentar o planeta é uma forma forçada de criar uma cultura de que, por sermos um grande produtor agrícola e agropecuário e porque alimentamos o mundo, podemos gerar custos irreparáveis para futuras gerações. Esta é uma questão séria para o País que precisamos entender com urgência.
O mesmo número apontado de pessoas alimentadas pela produção de grãos do Brasil é equivalente ao número de pessoas que passam fome no mundo que, também, é de cerca de 1 bilhão, conforme estudos da FAO. Logo, o agronegócio do Brasil não alimenta o mundo, representa apenas cerca de 10%, pois a população mundial é de cerca de 8 bilhões de pessoas.
E, também não alimenta nem mesmo o Brasil, basta considerarmos que temos cerca de 33 milhões de pessoas em estado miséria, atualmente. Ao consideramos os tipos de grãos produzidos no Brasil, grande parte deles vão para ração animal, como é o caso do milho onde cerca de 62% da produção de 2020 virou ração. E da soja produzida, cerca de 60% foi exportada, apenas para um país, a China.
A estrutura produtiva brasileira do agronegócio é concentrada e está nas mãos de grandes produtores que já estão falando em Agro 4.0, que se traduz em maior incorporação de tecnologia no campo e, consequentemente, necessidade de maior espaço físico para plantio e criação.
Somente este fator (tecnologia) deve afastar ainda mais os pequenos produtores do campo para suportar a grande empresa agrícola, agora mecanizada. Os contingentes populacionais expulsos das terras, há muito tempo vêm piorando as condições de vida no meio urbano e, gerando ganhos extraordinários para os grandes exportadores do agronegócio.
Estão criando uma cortina de fumaça para justificar a expansão das culturas em terras protegidas para justificar uma maior devastação do meio ambiente e, ainda, gerar mais exclusão de brasileiros dos produtos gerados em terras de brasileiros.
Somente com a maior participação do pequeno produtor agrícola é que podemos pensar rigorosamente em um país alimentando o seu povo e a população do mundo, já que é um grande produtor de alimentos. O motivo é simples. São os pequenos agricultores que conseguem maior diversidade de produção e, é a partir do pequeno produtor que podemos pensar em maior sustentabilidade ambiental.
Ouça o podcast completo com José Joaquim do Nascimento:
o tamanho da fome