
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de 80 anos, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), de 45, trocaram ataques pessoais durante o debate presidencial da TV Globo, na sexta-feira (23). As expressões “nove dedos” e “miliciano” marcaram um dos momentos mais tensos do confronto, realizado antes do segundo turno das eleições de 2026.
A discussão começou quando Flávio criticou a política econômica do governo federal. Ao questionar os impostos e o salário mínimo, o senador afirmou que Lula dava benefícios com uma mão e retirava recursos da população com os nove dedos.
A declaração fez referência à perda de um dedo da mão esquerda do presidente. Lula sofreu o acidente em 1964, aos 17 anos, quando trabalhava como torneiro mecânico.
Lula reage à expressão ‘nove dedos’ e chama Flávio de ‘miliciano’
No segundo bloco, Lula retomou a declaração do adversário e cobrou respeito à sua trajetória profissional.
O presidente lembrou que perdeu o dedo enquanto trabalhava à noite, ainda adolescente. Além disso, criticou a experiência profissional do senador.
Durante a reação, Lula chamou Flávio de “miliciano” e exigiu um pedido de desculpas pela referência ao acidente de trabalho.
Flávio pediu desculpas pela expressão e afirmou que não pretendia ofender o presidente. Entretanto, repudiou a acusação de Lula e voltou a criticar o governo federal.
Homenagem a miliciano integra histórico de Flávio Bolsonaro
A referência de Lula às milícias ocorre em um contexto de episódios documentados envolvendo Flávio Bolsonaro e pessoas apontadas pelas autoridades como integrantes desses grupos criminosos no Rio de Janeiro.
Um dos casos envolve o ex-capitão da Polícia Militar Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como integrante da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio conhecido como Escritório do Crime.
Em 2005, Flávio Bolsonaro, então deputado estadual, propôs a concessão da Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ao ex-policial.
Na ocasião, Adriano estava preso, acusado de homicídio. Posteriormente, a Justiça o absolveu daquela acusação. Anos depois, novas investigações apontaram sua participação em organizações criminosas.
Adriano morreu em fevereiro de 2020, durante uma operação policial na Bahia, depois de permanecer foragido.
Em entrevista ao Jornal Nacional, em agosto de 2026, Flávio defendeu a homenagem. Segundo o senador, Adriano era considerado um policial exemplar na época, e ele não poderia responder por condutas posteriores do homenageado.
Mãe e ex-mulher de Adriano trabalharam no gabinete do senador
Outro episódio envolve a contratação de familiares de Adriano da Nóbrega para cargos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Raimunda Veras Magalhães, mãe do ex-policial, e Danielle Mendonça, sua ex-mulher, trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro durante seu mandato como deputado estadual.
As duas deixaram os cargos em novembro de 2018, quando vieram à tona investigações sobre movimentações financeiras suspeitas envolvendo o antigo gabinete.
O Ministério Público investigou a possível participação de familiares de Adriano em um esquema de devolução de parte dos salários de assessores, conhecido como “rachadinha”.
Flávio sempre negou envolvimento em irregularidades. O senador afirmou que as indicações partiram de seu ex-assessor Fabrício Queiroz e contestou as suspeitas levantadas pelos investigadores.
Emenda de R$ 199 mil foi negociada com homem ligado à milícia
Em setembro de 2026, uma reportagem da Folha de S.Paulo revelou que uma assessora de Flávio Bolsonaro negociou, em 2023, a liberação de recursos de emendas parlamentares com Robson Calixto da Silva, conhecido como “Peixe”.
Calixto recebeu condenação do Supremo Tribunal Federal, em fevereiro de 2026, por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.
Segundo a reportagem, a negociação envolveu aproximadamente R$ 199 mil destinados a um projeto de futebol do Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, na zona oeste do Rio de Janeiro.
A entidade fica em uma região de influência dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, condenados como mandantes do assassinato de Marielle.
A Polícia Federal identificou indícios de irregularidades na aplicação dos recursos. Entretanto, a existência da emenda não comprova participação pessoal de Flávio Bolsonaro em crimes praticados por milicianos.
Em resposta à reportagem, a assessoria do senador afirmou que os repasses seguiram a legislação e os critérios técnicos do Ministério do Esporte. Também declarou que a responsabilidade pela execução dos recursos cabia à entidade beneficiária.
Flávio já fez declarações favoráveis à atuação de milícias
O histórico de declarações públicas de Flávio Bolsonaro também entrou no debate sobre sua relação com esses grupos.
Em fevereiro de 2007, durante discurso na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o então deputado defendeu que não se deveria generalizar a condenação das milícias a partir dos crimes cometidos por determinados integrantes.
Na ocasião, Flávio descreveu esses grupos como organizações formadas por policiais que buscavam combater criminosos nas comunidades.
Em outro pronunciamento, durante a discussão sobre a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Milícias, o parlamentar afirmou que moradores de determinadas comunidades relatavam maior sensação de segurança após a presença desses grupos.
As declarações constam de registros de discursos da Alerj recuperados pelo UOL em reportagem investigativa publicada em setembro de 2022.
Apesar das manifestações, Flávio votou a favor da criação da CPI das Milícias, em 2008, após a repercussão da tortura de jornalistas do jornal O Dia por integrantes de um desses grupos.
Segurança pública e programas sociais também geram confronto
Além dos ataques pessoais, os candidatos discutiram segurança pública, economia, saúde e programas sociais.
Lula questionou Flávio sobre a defesa de um policial militar acusado de envolvimento na morte de Ana Clara, de 5 anos, atingida por um tiro de fuzil em Niterói, em 2021.
O senador manifestou solidariedade à família da criança e defendeu a inocência do policial. O caso ainda não havia recebido julgamento definitivo.
Os candidatos também divergiram sobre o Bolsa Família, a licença-maternidade, o custo de vida e o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS).
O encontro terminou com novas críticas entre Lula e Flávio Bolsonaro, que disputam a Presidência da República no segundo turno deste domingo (25).
