Acidente com Legacy que saiu de São José dos Campos e colidiu com avião da Gol completa 20 anos nesta terça (29)

Fotos: Destroços do avião da GOL/Reprodução

O acidente aéreo que matou 154 pessoas após a colisão entre um Boeing 737 da Gol e um jato executivo Legacy 600, fabricado pela Embraer, completa 20 anos nesta terça-feira (29). O jato havia decolado de São José dos Campos, no interior de São Paulo, com destino aos Estados Unidos.

A tragédia ocorreu em 29 de setembro de 2006, no espaço aéreo da região norte de Mato Grosso, e provocou investigações sobre as falhas na comunicação entre aeronaves e no controle de tráfego aéreo brasileiro.

Duas décadas depois, os pilotos do Legacy foram condenados pela Justiça brasileira, mas não cumpriram pena no país. As famílias das vítimas também continuam acompanhando desdobramentos judiciais relacionados às indenizações.

Como aconteceu a colisão

A aeronave era um Embraer Legacy 600, modelo EMB-135BJ, fabricado pela brasileira Embraer em 2006, com número de série 14500965. A aeronave tinha matrícula americana N600XL e era operada pela empresa americana ExcelAire Services, segundo relatório do Cenipa.

O Legacy 600, de matrícula norte-americana N600XL, partiu do Aeroporto de São José dos Campos em direção a Manaus. A viagem fazia parte de um deslocamento com destino final a Fort Lauderdale, na Flórida, nos Estados Unidos.

A bordo estavam dois pilotos norte-americanos e cinco passageiros. A aeronave executiva seguia pelo espaço aéreo brasileiro quando se encontrou com o Boeing 737-800 da Gol, que cumpria o voo 1907, de Manaus para o Rio de Janeiro, com escala prevista em Brasília.

Às 16h56 daquele dia, as aeronaves colidiram a aproximadamente 37 mil pés de altitude, na região da Serra do Cachimbo, no norte de Mato Grosso. O impacto atingiu as asas dos dois aviões.

O Boeing da Gol perdeu parte significativa da asa esquerda e ficou sem condições de continuar voando. A aeronave caiu em uma área de mata fechada, e todas as 154 pessoas a bordo morreram, entre passageiros e tripulantes.

O Legacy também sofreu danos, incluindo a perda de parte da ponta de uma asa, mas permaneceu controlável. Os pilotos conseguiram realizar um pouso de emergência na Base Aérea do Cachimbo, no Pará. Os sete ocupantes sobreviveram.

Imagem: Jato Legacy pouco após decolar de São José dos Campos/Reprodução – GLOBO

O que aconteceu nos momentos anteriores

As investigações identificaram problemas relacionados ao funcionamento do transponder do Legacy, equipamento que transmite informações da aeronave aos sistemas de vigilância do tráfego aéreo. A interrupção ou o funcionamento inadequado desse equipamento comprometeu a identificação do jato e o funcionamento do TCAS, sistema de alerta e prevenção de colisões em voo.

O TCAS é utilizado para alertar os pilotos sobre aeronaves próximas e orientar manobras para evitar colisões. A investigação também apontou falhas nas instruções de altitude e no acompanhamento das aeronaves pelos controladores de tráfego aéreo.

Esses fatores contribuíram para que os dois aviões ocupassem níveis de voo conflitantes sem que a situação fosse corrigida a tempo. O Boeing e o Legacy acabaram seguindo trajetórias que levaram ao choque em pleno voo.

O que concluiu a investigação oficial

O relatório final do Cenipa, divulgado em dezembro de 2008, identificou uma combinação de fatores operacionais, humanos e relacionados ao controle de tráfego aéreo. O documento apontou problemas no funcionamento do transponder do Legacy, falhas na condução do tráfego e deficiências nos procedimentos e nas instruções de altitude.

A investigação também não identificou falhas ativas dos pilotos do Boeing da Gol que tenham contribuído para a colisão. O relatório apresentou recomendações para aperfeiçoar os procedimentos de controle aéreo, a comunicação entre equipes e o treinamento dos profissionais envolvidos.

O trabalho do Cenipa teve finalidade de prevenção de acidentes aeronáuticos. Suas conclusões técnicas não equivalem, por si só, à definição de responsabilidade criminal, que foi objeto de processos judiciais separados.

Os pilotos foram punidos?

Sim. Os pilotos norte-americanos Joseph Lepore e Jan Paul Paladino, que conduziam o Legacy, foram condenados pela Justiça Federal brasileira em maio de 2011 por atentado contra a segurança do transporte aéreo, na modalidade culposa.

A sentença inicial estabeleceu pena de quatro anos e quatro meses de prisão em regime semiaberto, posteriormente substituída por prestação de serviços comunitários. Em outubro de 2012, a pena foi reduzida para três anos e um mês, em regime aberto.

A situação dos dois pilotos teve um desfecho diferente do cumprimento de uma pena de prisão no Brasil. Eles retornaram aos Estados Unidos em 2007 e não cumpriram pena em território brasileiro. Reportagens anteriores também registraram questionamentos das famílias sobre o efetivo cumprimento das sanções no exterior.

A Justiça também condenou o controlador de tráfego aéreo Lucivando Tibúrcio de Alencar a três anos e quatro meses de prisão em regime aberto. Outros três controladores envolvidos foram absolvidos.

Onde estão os pilotos atualmente?

Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 2016 informou que Lepore e Paladino continuavam ligados à aviação e moravam nos Estados Unidos. Na época, Paladino havia voltado a trabalhar na American Airlines, enquanto Lepore permanecia vinculado à empresa de táxi aéreo ExcelAire, proprietária do Legacy envolvido no acidente.

A aeronave também voltou a voar depois do acidente. Segundo a Folha, o Legacy passou por reparos, foi vendido e chegou a integrar a frota de uma empresa de aviação executiva mexicana.

Foto: Reprodução

20 anos depois, famílias ainda convivem com o luto

A passagem de duas décadas não encerrou o sofrimento dos parentes das 154 vítimas. Em reportagem publicada em 27 de setembro de 2026, a Folha de S.Paulo ouviu familiares que ainda convivem com lembranças dolorosas e com a dificuldade de falar sobre a tragédia.

A psicóloga Neusa Felipetto Machado, de 76 anos, perdeu o marido no acidente. Ela relatou à publicação que reconheceu o corpo no Instituto Médico Legal de Brasília em outubro de 2006, por uma característica física que fazia parte das brincadeiras do casal. Anos depois, ajudou a organizar uma associação de familiares das vítimas.

A reportagem também ouviu familiares do estudante de medicina Átila Antônio Assad Rezende, que tinha 24 anos quando morreu. Parentes relataram que a proximidade da data do acidente reaviva as lembranças e que ainda encontram pessoas que desconhecem o episódio.

Familiares planejavam se reunir nesta terça-feira (29), no Jardim Botânico de Brasília, onde existe uma placa em homenagem às vítimas do voo 1907. A iniciativa marca os 20 anos da tragédia e mantém viva a memória das pessoas que morreram.

Indenizações continuam na Justiça

Além das condenações criminais, as consequências do acidente permanecem em discussão na esfera cível. Uma ação movida pelo Ministério Público Federal desde 2008 questiona o valor do seguro obrigatório de responsabilidade do transportador aéreo pago às famílias das vítimas.

De acordo com reportagem da Folha publicada em 27 de setembro de 2026, o seguro pago na época foi de R$ 14.223,64 por vítima. O processo discute a correção desse valor, que teria ficado defasado em relação às regras legais de atualização monetária.

Em decisão monocrática de 14 de setembro de 2026, a ministra Isabel Gallotti, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), reconheceu o direito à correção das apólices. Segundo a reportagem, a atualização poderia elevar o valor para cerca de R$ 300 mil por família, em valores atuais. A quantia definitiva ainda depende da apuração dos valores devidos, e a decisão está sujeita a recursos.

A ação também envolve vítimas do acidente com o voo TAM 3054, ocorrido em 2007. Gol, Latam, SulAmérica Seguros e Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) aparecem no processo, segundo a publicação. A Gol informou à Folha que respeita a memória dos passageiros e tripulantes do voo 1907 e que concluiu os acordos de indenização com as famílias.

Para parte dos familiares, portanto, a busca por respostas e por reparação financeira continua aberta, mesmo após duas décadas.