MP abre inquérito para investigar Anderson Farias por veto a Milly Lacombe em feira literária

Curadoras alegam censura e deixam FLIM após veto à participação de Milly Lacombe
Foto: Reprodução

O Ministério Público de São Paulo (MPSP) abriu um Inquérito Civil para apurar a exclusão da jornalista Milly Lacombe da 11ª edição da Festa Litero Musical do Vale do Paraíba (Flim), em São José dos Campos. A investigação foi aberta após o recebimento de diversas notícias que apontaram possível ato de censura e violação à liberdade de expressão e ao direito de acesso à cultura.

O caso começou após Milly participar de um podcast em julho de 2025, criticando o modelo tradicional de família:

“Esse negócio de família tá f**** a gente. Família é um núcleo produtor de neurose. Essa família tradicional, branca, conservadora, brasileira. Gente, isso é um horror. É a base do fascismo. Falemos a verdade”, disse Milly Lacombe.

Em setembro, já com a presença de Milly confirmada na mesa de abertura da Flim, políticos de oposição ao prefeito Anderson Farias (PSD), como o vereador Thomaz Henrique (PL), passaram a pressionar a administração municipal de São José dos Campos.

A portaria que instaurou o inquérito civil cita um vídeo publicado nas redes sociais pelo vereador Zé Luís (PSD), no dia 16 de setembro de 2025, ao lado de Anderson Farias. Na conversa, o prefeito diz que ligou para o gestor do Parque Vicentina Aranha no sábado, dia 13 de setembro (três dias antes da suposta desistência de Milly Lacombe) e que decidiram conjuntamente não trazer mais a jornalista para participar da Flim:

“Logo que você (Zé Luís) me levou esse assunto, imediatamente já liguei ao Vicentina Aranha, conversei com o doutor Aldo Zonzini, que é o nosso diretor executivo lá da AFAC, que é a empresa gestora, que é a entidade gestora, e já decidimos ali, no sábado pela manhã, já foi decidido já que nós não íamos mais trazê-la por causa dessas questões da postura dela”, disse Anderson Farias.

Em outra manifestação, o prefeito Anderson Farias também afirmou que a presença de Milly Lacombe foi cancelada porque, na visão dele, “a cultura deve unir, e não dividir”Anderson disse ainda que não permitiria que “espaços públicos sejam usados como palanque político-ideológico” e citou um episódio anterior, em que já havia suspendido o pagamento de cachê da cantora Maria Gadú em outro evento cultural da cidade.

Investigação

Para o promotor, o vídeo evidencia “a utilização de critérios subjetivos e convicções pessoais para calar voz plural em evento cultural custeado com recursos públicos, o que, na hipótese, implicaria em odioso ato de censura”.

Milly Lacombe acabou deixando a Flim. Em reação, outros escritores abandonaram o evento e a feira literária mais tradicional da cidade acabou adiada de setembro para novembro, mês em que foi realizada – sem a presença da jornalista.

O Ministério Público questionou a Afac e a prefeitura. De acordo com o MP, na resposta, a prefeitura “foi taxativa ao dizer que não houve veto formal do Prefeito ou do Município à participação de Milly Lacombe, asseverando que, na verdade, o que teria ocorrido foi a desistência da jornalista em participar do evento por iniciativa própria, recusando-se a assinar o contrato da AFAC por sentir-se insegura diante de críticas feitas por vereadores nas redes sociais”.

Já Aldo Zonzini filho afirmou que “a Afac e a assessoria da Sra. Milly Lacombe tomaram a ação, conjunta e consensualmente”.

O MP, contudo, aponta contradições entre as versões apresentadas e os registros públicos disponíveis. Para a Promotoria, a retirada da jornalista e a saída de outros convidados em protesto resultaram em prejuízo cultural à população, com a descaracterização da curadoria original da feira. A portaria do MP que abre a investigação afirma que a Constituição Federal proíbe qualquer forma de censura política, ideológica ou artística.

Diante dos indícios, o Ministério Público determinou que sejam ouvidas testemunhas, a própria jornalista e a requisição de documentos, para aprofundar a apuração dos fatos.

O que diz a defesa de Anderson Farias

A CBN Vale tentou contato com a assessoria de imprensa da Prefeitura de São José dos Campos, mas ainda não conseguiu retorno sobre o caso.