Jovem morto por leoa expõe falhas em saúde mental e proteção social

Jovem morto por leoa expõe falhas em saúde mental e proteção social
Foto: Reprodução / Instagram

O jovem Gerson de Melo, conhecido como “Vaqueirinho”, morreu neste domingo (30) ao invadir o recinto de uma leoa no Parque Arruda Câmara, em João Pessoa. De acordo com a administração do espaço, ele escalou rapidamente as barreiras de segurança e entrou na área dos felinos, onde foi atacado. O parque foi fechado logo depois, e as investigações já estão em andamento.

Segundo a conselheira tutelar Verônica Oliveira, que acompanhou parte da trajetória do jovem desde a infância, Gerson viveu em situação de vulnerabilidade durante muitos anos. Ela contou que o conheceu quando ele tinha apenas 10 anos, após ser encontrado caminhando sozinho na beira de uma rodovia. Desde então, passou por diferentes acolhimentos e não foi adotado com os quatro irmãos.

Ao longo da adolescência, ele apresentou comportamentos que chamavam atenção, como tentativas de entrar em áreas restritas e fantasias frequentes envolvendo viagens à África. A conselheira lembrou que, em uma dessas situações, o jovem chegou a ser interceptado no trem de pouso de um avião, acreditando que conseguiria viajar escondido.

Diagnóstico e decisões da Justiça

Somente em 2023, Gerson recebeu um diagnóstico formal que apontava transtorno mental associado a alterações de comportamento. O documento recomendava acompanhamento contínuo, algo que, segundo Verônica, nunca aconteceu de forma adequada.

Como resultado de episódios anteriores, a Justiça da Paraíba determinou, em outubro, que o jovem fosse internado em um Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico. A decisão se baseou em laudos que indicavam risco tanto para ele quanto para terceiros. Contudo, a intimação não chegou a ser cumprida antes do incidente deste domingo.

Foto: Reprodução / Instagram

Parque descarta sacrificar a leoa

Após o ataque, o Parque da Bica informou que a leoa, chamada Leona, não será sacrificada. A direção afirmou que ela reagiu ao que considerou uma invasão repentina e que segue em observação, já que passou por forte estresse. Segundo o parque, o recinto tem mais de oito metros de altura e segue padrões rígidos de segurança.

Os veterinários destacaram que o animal respondeu aos comandos e retornou ao setor interno sem a necessidade de tranquilizantes, o que ajudou a evitar danos adicionais.

Órgãos vão revisar segurança do parque

O Conselho Regional de Medicina Veterinária da Paraíba anunciou a criação de uma comissão técnica para avaliar a estrutura do zoológico e revisar protocolos. O objetivo é ajudar na implementação de medidas que aumentem a segurança de visitantes, funcionários e animais.

Além disso, a Secretaria de Meio Ambiente abriu uma investigação para esclarecer como o jovem conseguiu acessar a área restrita. A prefeitura afirmou que equipes de segurança tentaram impedir a ação, porém não conseguiram agir a tempo.

Debate sobre assistência e políticas públicas

A morte do jovem reacendeu discussões sobre a rede de proteção e o acompanhamento de pessoas com transtornos mentais. Segundo a conselheira, Gerson enfrentou uma vida de abandono e não recebeu o tratamento recomendado.

Enquanto o parque segue fechado, os órgãos responsáveis continuam apurando as circunstâncias da ocorrência. As conclusões devem orientar mudanças nos protocolos e auxiliar na prevenção de novos incidentes.