Gabriela Boteon: a joseense que transformou a paixão por cavalos em carreira no hipismo

A conexão de Gabriela Boteon com o hipismo nasceu quando tinha apenas cinco anos
A paixão de Gabriela Boteon pelo hipismo começou quando tinha apenas cinco anos. Foto: Mari Moreira

Desde a infância, Gabriela Boteon já parecia destinada ao hipismo. A joseense cresceu cercada por cavalos na fazenda do avô, onde montava por diversão e curiosidade.

Foi com apenas cinco anos que nasceu essa conexão que, anos depois, se transformaria em uma profissão. Mesmo pequena, ela chegou a praticar o hipismo clássico de salto, mas depois decidiu fazer uma pausa para explorar outras atividades esportivas.

“Desde pequena eu sempre tive contato com os cavalos. O meu avô tinha uma fazenda de criação, e eu sempre montava lá os cavalos dele. Com 5 ou 6 anos comecei a fazer hipismo clássico, o salto. Mas eu era muito nova, não entendia muito, então quis parar e tentar outros esportes”, lembra.

O ‘retorno’ de Gabriela ao hipismo aconteceu durante a pandemia da Covid-19. Com as restrições da quarentena e o desejo de sair de casa, ela reencontrou nos cavalos uma forma de liberdade. Incentivada por uma amiga que praticava o esporte, voltou a montar e rapidamente redescobriu a paixão que havia adormecido.

“Na quarentena, com o lockdown, não dava pra fazer quase nenhum esporte, não podia sair de casa. Eu tinha uma amiga que fazia hipismo e resolvi voltar pra acompanhar ela, pra sair um pouco de casa. Eu sempre gostei de cavalo, mesmo quando não fazia hipismo, sempre tive um amor muito grande por eles”, conta.

O que começou como uma aula de lazer virou rotina. Vieram duas, três aulas, e logo ela queria montar todos os dias. No ano seguinte, em 2021, Gabriela participou do primeiro campeonato — saltando nas categorias de 40 e 60 centímetros — terminando em sexto e oitavo lugar, respectivamente. A partir daí, não parou mais.

Foto: Mari Moreira

A virada de chave e o amor pela dedicação

Em 2022, ela ganhou sua primeira égua e, em 2023, participou de um campeonato de grande importância, consolidando sua evolução no esporte. Foi também naquele ano de 2023 em que ela percebeu que o hipismo poderia ser mais do que um hobby.

Ao trabalhar com um cavalo alugado que apresentava problemas de refugo, Gabriela passou meses se dedicando ao treinamento e à construção de confiança. Depois de sucessivas eliminações, veio a recompensa: o título de campeã do Festival Nacional do Cavalo Brasileiro de Hipismo. Esse foi o momento em que Gabriela entendeu que o amor e a disciplina que tinha pelos animais poderiam levá-la longe.

“Comecei a montar cavalos diferentes, com mais desafios. Foram nove meses de dedicação, sendo eliminada, mas sempre voltando a treinar. Em novembro de 2023, fomos campeões do Festival Nacional do Cavalo Brasileiro de Hipismo. Foi aí que percebi que, com dedicação e amor, eu podia chegar onde quisesse.”

Para ela, o hipismo é uma relação de equilíbrio. Gabriela costuma dizer que a parceria entre amazona e cavalo é dividida meio a meio — há dias em que ela precisa compensar o desempenho do animal, e outros em que é o cavalo quem a sustenta.

“Eu acho que é 50/50. Tem partes que é o cavalo que faz e partes que somos nós. Mas tem dias em que o cavalo não está bem e a gente precisa fazer 80%, ou quando eu não estou bem, ele faz mais. É uma relação de parceria: a gente vai se ajudando e se conhecendo.”

Gabriela Boteon em entrevista ao programa CBN Vale Esportes desta segunda-feira (10)
Amazona Gabriela Boteon em entrevista ao programa CBN Vale Esportes desta segunda-feira (10). Foto: CBN Vale

Conquistas e o legado do hipismo

Entre as conquistas mais marcantes, Gabriela destaca o recente oitavo lugar no Campeonato Brasileiro de Hipismo de Amazonas, resultado que ela mesma não esperava. Competindo com um cavalo novo e após apenas três semanas de treino, enfrentou percursos inéditos e um desempate decisivo. Mesmo assim, manteve a calma, concentrou-se e garantiu o resultado entre 160 competidoras de todo o Brasil.

“Eu não estava esperando esse resultado: oitavo lugar entre 160 meninas. Estava com um cavalo novo, treinei só três semanas, numa altura que não estava acostumada. Nunca tinha feito percurso de 1,15 m nem desempate, que foi o que me deu o título. Tudo era novo, mas consegui manter a calma, me concentrar e dar o meu melhor. O meu cavalo ajudou muito — isso foi o mais importante pra mim.”

Mais do que técnica e resultados, o hipismo ensinou à jovem de 16 anos valores que ela leva para a vida. Gabriela vê o esporte como um exercício de respeito e empatia. Para a atleta, essa relação de confiança e respeito é o que torna o hipismo especial.

“Vai muito além de um esporte. A conexão com o cavalo, o respeito, o cuidado, o manejo… isso é o mais importante. Eu sempre coloco meus cavalos em primeiro lugar. Se estão com dor, eu nunca forço. Sempre priorizo a saúde deles. É isso que o hipismo ensina: respeito e cuidado com os animais.”

Apesar de tudo isso, a amazona reconhece que o hipismo ainda é pouco conhecido e, muitas vezes, mal compreendido.

“Muita gente julga o hipismo achando que é exploração dos animais, mas é falta de conhecimento. É um esporte bonito, que merece mais reconhecimento”, defende.

Para ela, o acesso ao esporte é possível a todos, já que as escolas contam com cavalos próprios para iniciantes.

“Pra começar, não precisa ter cavalo. As escolas têm cavalos de iniciação. Quando a pessoa percebe que é isso que quer, pode pensar em comprar o próprio cavalo. Até 90 cm dá pra competir com cavalo de escola. De um metro pra cima é interessante ter o próprio. E qualquer pessoa pode fazer — não importa peso, idade ou tamanho. É um esporte muito versátil.”

Amor de Gabriel com os cavalos. Foto: Carol Cotrim Mídia

Ídolos e os treinos de Gabriela Boteon

Inspirada por ídolos, como o brasileiro Stefan Barcha — quinto melhor cavaleiro do mundo —, Gabriela também encontra inspiração próxima em seu treinador, Guilherme Assad, do Centro Hípico Esplanada do Sol, em São José dos Campos.

É nesse local que ela treina cinco dias por semana, equilibrando as horas de treino com os estudos. Segundo ela, as segundas-feiras são dedicadas à folga dos cavalos. Cada sessão de treino dura cerca de uma hora, mas o cuidado com o animal prolonga o tempo na hípica: banho, escovação e carinho são parte da rotina.

Gabriela Boteon ao lado de seu treinador Guilherme Assad
Gabriela Boteon ao lado de seu treinador Guilherme Assad. Foto: Mari Moreira

Futuro e sonhos

Atualmente, Gabriela está em busca de um novo cavalo para seguir evoluindo nas categorias. O atual está à venda, e o foco da amazona neste fim de ano é encontrar o parceiro ideal para subir de nível.

Quando questionada sobre o sonho de participar dos Jogos Olímpicos, ela sorri e responde com serenidade e sinceridade:

“Acho que eu preciso de mais treino pra isso. Preciso subir de categoria, muitas coisas… mas é um sonho meu.”

Principais conquistas de Gabriela Boteon

  • 2022: 2º lugar geral no Ranking CHSA, na categoria de 0,60 m, em São Paulo.
  • 2022: 1º lugar por equipe no Campeonato Paulista de Amazonas, com altura de 0,80 m, em Campinas.
  • 2023: 1º lugar no dia na 7ª etapa do Ranking SHP, com altura de 0,90 m, em São Paulo.
  • 2023: 1º lugar no dia, novamente na 7ª etapa do Ranking SHP, desta vez com altura de 1,00 m, em São Paulo.
  • 2023: 1º lugar geral no Festival Nacional do Cavalo BH, com salto de 1,00 m, em São Paulo.
  • 2023: 5º lugar por equipe no Festival Nacional do Cavalo BH, com altura de 1,00 m, em São Paulo.
  • 2024: 3º lugar no Ranking SHP, com desempenho em 1,10 m, na 3ª etapa realizada em São Paulo.
  • 2024: 1º lugar em provas do Haras Recanto do Itapema, com salto de 1,00 m.
  • 2024: 3º lugar geral e 4º lugar no dia na 7ª etapa do Ranking CHSA, com 0,90 m, em São Paulo.
  • 2024: 2º lugar e 5º lugar em provas abertas do Hipismo Parque Atibaia, além de outro 3º lugar na mesma etapa.
  • 2025: 8º lugar no Campeonato Brasileiro de Hipismo de Amazonas.