
Na noite desta terça-feira (28), o Teatro Municipal de São José dos Campos recebeu uma das montagens mais instigantes do 39º Festivale: O Mercador de Veneza, com Dan Stulbach no papel do lendário Shylock.
Saí do ensaio da peça com o coração dividido — não apenas pela densidade do texto de Shakespeare, mas porque, enquanto o palco falava de ódio e vingança, chegavam as notícias de um massacre no Rio de Janeiro: mais de cem mortos em uma operação policial. Diante disso, foi impossível não pensar que o teatro e a realidade se espelham. Ambos nos cobram a mesma pergunta: o que fazemos com a nossa humanidade quando o preconceito, o medo e o poder ditam o rumo das ações?

Entre o contrato e o sangue: a atualidade de Shakespeare
Escrito há mais de quatro séculos, por volta de 1596, O Mercador de Veneza continua sendo uma ferida aberta. Shakespeare falava de ganância, justiça e intolerância em um tempo de impérios e cruzes, mas sua voz ainda ecoa nas ruas, nas redes e nas tragédias urbanas de hoje.
A diretora Daniela Stirbulov atualiza o texto sem transformá-lo em panfleto, mas em leitura obrigatória. O cenário lembra o ambiente corporativo — um espaço onde a ambição e o dinheiro substituem o altar e a fé. Ali, cada personagem se move entre o lucro e o medo, entre o desejo e a culpa.
Dan Stulbach é o centro gravitacional da montagem. Seu Shylock tem voz firme, olhar ferido e uma calma que precede a tormenta. Ele não é apenas o judeu humilhado que cobra uma libra de carne — é o homem exaurido de tanto ser desumanizado. Stulbach evita o exagero e constrói um personagem de densidade e contradição: uma vítima que também é carrasco de si mesmo, e que mesmo quase ao perder a voz em aflição, urra o sentimento apertado.

A montagem utiliza recursos contemporâneos de forma que prende a atenção do público, com videoprojeções, música ao vivo e iluminação expressiva. O elenco forma um time que não dá ao espectador tempo de imaginar contradições, fixando a atenção no alinhamento dos movimentos, nas entonações e na ocupação do espaço de um imaginário octógono, em combates de corpo e alma. O espetáculo é, antes de tudo, uma meditação sobre a carne e o espírito, o contrato e o perdão.
Veneza e o Rio: ecos da barbárie e da empatia
Enquanto Shylock clama por justiça, ecoa o mesmo dilema que atravessa as vielas do Rio de Janeiro. Quando mais de cem corpos — em sua maioria de pessoas negras — tombam em uma operação policial, a linha que separa a lei da vingança parece tão tênue quanto o fio da navalha que ameaça o peito de Antônio.
Shakespeare já sabia: o ódio sempre cobra juros. E talvez essa seja a mensagem mais dura da peça — que nenhuma sociedade sobrevive quando transforma o “outro” em inimigo.
O massacre recente, que vitimou também quatro policiais, nos obriga a pensar se o preconceito e a desigualdade não continuam sendo as verdadeiras tragédias da humanidade. Assim como Shylock, o país clama por reparação — mas entre o desejo de justiça e o impulso da vingança, é a empatia que ainda falta em cena.

O teatro como fôlego e esperança
A montagem de O Mercador de Veneza é, portanto, mais do que uma peça — é um ritual de espelho. Mostra o que somos e o que poderíamos ser.
Dan Stulbach entrega uma atuação precisa, contida e humana; o elenco, afinado e expressivo, sustenta a narrativa com ritmo e entrega. Daniela Stirbulov conduz o grupo com a segurança de quem entende que a maior provocação de Shakespeare não está nas palavras, mas nas perguntas que ele nos obriga a fazer.
Ao deixar o teatro, ainda ecoava em mim o peso das notícias do Rio. Mas também uma estranha esperança. Porque o teatro, mesmo quando fala de dor, nos lembra que ainda é possível escolher o perdão, a compaixão e a lucidez.
O Mercador de Veneza não é apenas Shakespeare revisitado. É o Brasil sendo desafiado a se olhar no espelho — e, quem sabe, a se tornar um pouco mais humano depois da cortina se fechar.
