
O climatologista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas do mundo em mudanças climáticas, concedeu entrevista exclusiva ao programa CBN Na Rede, na segunda-feira (29), durante a inauguração oficial da 90,7 FM em São José dos Campos. Ele falou sobre os desafios que o Brasil e o planeta enfrentam diante dos eventos extremos, destacando os riscos e a necessidade urgente de ações concretas de mitigação e adaptação.
Nobre destacou que a ciência meteorológica avançou muito no Brasil, principalmente com o trabalho do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e que hoje, já é possível prever com maior precisão inundações, deslizamentos e ondas de calor.
No entanto, ele fez um alerta:
“Onde nós não estamos melhorando? No combate. Globalmente não estamos adaptados, e no Brasil, menos ainda. Os países em desenvolvimento têm muitas dificuldades.”
Vidas em risco com ondas de calor e áreas vulneráveis
O cientista lembrou que as ondas de calor são o fenômeno que mais provoca mortes no mundo, estimadas em mais de 500 mil por ano, principalmente entre idosos, crianças e pessoas doentes.
No caso brasileiro, ele destacou o levantamento do Cemaden sobre áreas de risco: “Milhões e milhões de brasileiros residem em locais vulneráveis a chuvas extremas prolongadas, como vimos no Rio Grande do Sul. Só no estado, mais de 500 mil pessoas vivem em áreas suscetíveis a enchentes e deslizamentos. O desafio é enorme, porque mais de 90% dessas populações são muito pobres.”
Futuro pode ser inabitável em várias regiões
Ao projetar cenários para o fim do século, o alerta de Nobre é ainda mais preocupante.
“Se nós não fizermos nada, a temperatura pode subir três a quatro graus até 2100. Nessas condições, as regiões equatoriais ao nível do mar se tornam inabitáveis. O corpo humano não resiste.”
Ele explicou que, no Sudeste brasileiro, haveria de 90 a 120 dias por ano em que o calor e a umidade impediriam a regulação natural do corpo humano. “Idosos e crianças resistem meia hora a uma hora. Adultos saudáveis, no máximo três horas. Podemos começar a tornar o planeta inabitável.”
Caminhos para evitar a catástrofe
Para o climatologista, é preciso agir em duas frentes urgentes: reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa e investir em resiliência.
“Temos que evitar que a temperatura ultrapasse muito de 1,5 grau. Ao mesmo tempo, precisamos criar condições de adaptação, porque os eventos extremos já estão acontecendo e vão se intensificar. Mais de dois bilhões de pessoas no mundo, principalmente em países pobres, são extremamente vulneráveis.”