
Um dos grandes sucessos do escritor Luís Fernando Veríssimo, que morreu neste sábado (30), aos 88 anos, é o livro “A Velhinha de Taubaté”, uma coletânea de crônicas lançada em 1983 que se tornou um dos trabalhos mais conhecidos do autor. A obra apresenta um dos personagens mais icônicos criados por Veríssimo: a Velhinha de Taubaté, que o próprio escritor descreve como “a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo”.
Veríssimo escreveu as crônicas no início dos anos 1980, durante o período final da ditadura militar no Brasil. O país vivia uma fase de abertura política lenta e muita desconfiança popular em relação às instituições. Nesse cenário, a Velhinha de Taubaté surge como um símbolo de ingenuidade e, ao mesmo tempo, um recurso satírico para criticar o distanciamento entre a realidade e o discurso oficial.
A Velhinha é apresentada como uma senhora bondosa, crédula e otimista, que vive na cidade de Taubaté. Enquanto boa parte da população já demonstrava ceticismo em relação ao governo, ela permanecia firme na crença de que tudo o que vinha das autoridades era verdadeiro. Ela acreditava, inclusive, que não havia tortura no Brasil durante a ditadura militar.
Por meio dela, Veríssimo tece uma crítica bem-humorada e irônica à propaganda política da época, mostrando como muitas narrativas oficiais tentavam mascarar os problemas do país. A personagem, por confiar cegamente nas notícias e pronunciamentos, funciona como um espelho do contraste entre o discurso institucional e a realidade vivida pela população.
Estilo e importância
O humor refinado de Veríssimo é o grande destaque do livro. Ele utiliza a leveza da personagem para provocar uma reflexão profunda sobre política, manipulação e alienação social, sem jamais soar panfletário. As crônicas, embora ambientadas no início dos anos 1980, continuam atuais, justamente porque dialogam com a forma como governos — de diferentes épocas — tentam controlar narrativas e manter a confiança popular.

A ‘morte’ da Velhinha de Taubaté
Embora Taubaté seja citada no título e na história, a escolha do nome foi aleatória. Em entrevistas, Veríssimo contou que escolheu Taubaté porque soava bem e representava, para ele, uma cidade típica do interior brasileiro. Mesmo assim, com o sucesso do livro, a cidade acabou se tornando inevitavelmente associada à personagem.
Já, em 2005, com o escândalo do Mensalão, Verissimo decidiu “matar” a Velhinha na crônica “Velhinha de Taubaté (1915-2005)”, publicada no Estadão. Para o autor, a personagem já não resistia diante de tantas denúncias de corrupção, especialmente durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. A morte da Velhinha simbolizou, de forma irônica, a perda da confiança da população na classe política.
Apesar disso, Verissimo chegou a brincar que a Velhinha poderia “voltar à vida” por meio de clonagem ou aparelhos médicos, sugerindo que a credulidade política poderia sempre ressurgir.
O escritor e cronista Luís Fernando Veríssimo morreu na manhã deste sábado (30), aos 88 anos, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Ele estava internado há cerca de três semanas na UTI do Hospital Moinhos de Vento devido a um quadro de pneumonia. A informação foi confirmada pela família, que ainda não divulgou detalhes sobre o velório e o sepultamento.